Lugares Escuros: um suspense psicológico complexo acerca das incertezas da memória


Crime, morte, mentiras, segredos, problemas familiares, paralelo entre o presente e o passado (seja através de flashbacks, seja por narrativas intercaladas) são elementos que costumam estar correlacionados na composição de um suspense. Gillian Flynn é uma autora famosa por fazer uso frequente desses elementos na construção de seus enredos, sempre suspenses psicológicos profundos e bem desenvolvidos, com personagens complexos e acontecimentos verossímeis (inclusive os plot twists). Mais conhecida por Garota Exemplar, publicado em 2012 e adaptado para o cinema em 2014, Flynn escreveu mais três livros (um conto e dois romances), dentre eles, Lugares Escuros, também adaptado para o cinema, em 2015.


A trama de Lugares Escuros traz como protagonista Libby Day, sobrevivente e testemunha de um massacre relacionado a um culto satânico do qual foram vítimas sua mãe e suas duas irmãs. Seu irmão mais velho, Ben, é acusado do crime e a declaração testemunhal de Libby corrobora os demais indícios que o apontam como responsável, sendo ele, portanto, condenado à prisão perpétua. Assim, a menina, que, na época do massacre tinha apenas sete anos, cresce sob o estigma de “a pequena órfã” ou de “a única sobrevivente do massacre da pradaria”.


Vivendo às custas de doações enviadas a uma conta bancária para seu sustento, ela chega aos 31 anos extremamente resignada. Após ser informada por seu contador de que seu dinheiro está se esgotando, Libby recebe uma proposta um tanto peculiar: ser remunerada para apresentar “novidades” e evidências acerca do massacre que dizimou sua família. A proposta é feita por Lyle, um membro do Kill Club, uma sociedade secreta formada por pessoas obcecadas por crimes famosos que se reúnem a fim de discuti-los e buscar novas informações para melhor compreender ou até mesmo tentar solucionar ou comprovar teorias acerca de tais crimes. Vendo-se em uma complicada situação financeira, acentuada pela sua restrição a desenvolver qualquer tipo de atividade profissional por mera resignação, ela acaba aceitando, mas não sem antes ponderar e até mesmo se indignar.

Revisitando seu passado, instigada pelo oportunismo de continuar lucrando com a tragédia à qual sobreviveu, a protagonista vai buscar reafirmar a culpa do irmão, por quem alimentou uma profunda mágoa durante todo esse tempo. Entretanto, sua investigação vai fazê-la questionar o próprio depoimento, devido a possibilidades que não podem ser ignoradas que despontam a partir de determinadas descobertas. Conforme o caso vai sendo reexaminado e evidências até então ocultas começam a ser reveladas, o que emerge é o fato de que a memória não só é falha, como manipulável, podendo ser, além de vaga e nebulosa, fabular.


O grande mérito da autora em Lugares Escuros é a complexidade na construção da trama, não apenas do enredo, mas também dos personagens. A partir do movimento pendular entre passado e presente, que se dá por meio de capítulos que narram os dias atuais intercalados aos que apresentam os fatos que antecederam o massacre que ocorreu na fazenda da família Day, os detalhes vão se unindo como peças de um quebra-cabeça e gradativamente a verdade começa a vir à tona. No fim, não há pontas soltas, muito menos explicações não dadas ou fatos inexplicáveis.

Tudo é narrado por uma protagonista extremamente resignada, egoísta e amargurada. Toda a empatia com a qual foi abraçada ao longo da vida contrasta com a sua personalidade nada empática. Não bastasse ser oportunista, ela é também cleptomaníaca. Libby Day é uma personagem desagradável, mesquinha, até certo ponto detestável, porém todos esses traços revelam sua humanidade: alguém com qualidades e defeitos (ainda que os defeitos se mostrem muitas vezes maiores do que as qualidades).


Pode-se dizer que a adaptação cinematográfica é simplesmente válida, apesar de (ou justamente por) não fazer jus à grandeza da trama, deixando, por exemplo, várias pontas soltas e não se aprofundando em determinadas questões, o que faz com que a complexidade dos personagens e até mesmo do enredo seja reduzida a um nível mais superficial. Focando mais nos plot twists da história, buscando, assim, provocar o espectador, acaba não conseguindo nem isso, pois, ao apresentar personagens complexos que não são devidamente desenvolvidos, acaba produzindo um desenrolar pouco contundente, por sua falta de solidez. É o tipo de filme que, por um lado, frustra o leitor com sua redução, e, por outro lado, entedia ou transmite a impressão de ser apenas um filme “ok” para o espectador que não tenha lido o romance de Gillian Flynn.


Podemos apontar o elenco como um dos pontos fortes do filme. Com Charlize Theron no papel da protagonista, seria difícil desapontar em termos de atuação (ressalte-se que a atriz encarna muito bem o papel de uma Libby Day apática e amargurada). O longa também conta com Corey Stoll (House of Cards) como Ben adulto, Nicholas Hoult (Skins) como Lyle, Christina Hendricks (Demônio de Neon) como Patty (a mãe de Libby), Tye Sheridan (X-Men: Apocalypse) como Ben adolescente, e Chloë Grace Moretz (Carrie – A Estranha) como Diondra (a namorada de Ben na adolescência).

Outro ponto a ser ressaltado no filme é a fotografia de Barry Ackroyd. Intercalando tons e cores diferentes para representar presente e passado, Ackroyd transmite a sensação de diferentes momentos temporais de forma interessante por meio desse efeito.


Assim, Lugares Escuros é uma excelente dica para amantes de suspenses psicológicos (em especial, o livro). Quem gostou de Garota Exemplar verá que a autora não decepciona na história protagonizada por Libby Day, seguindo a mesma estrutura de narrativa complexa e intercalada entre capítulos no presente e no passado, o que possibilita o esclarecimento de todos os pontos misteriosos minuciosamente enquanto o enredo se direciona para um final inesperado. Quanto ao longa baseado no livro, pode-se afirmar que surge como uma opção interessante, com boas interpretações e uma bela fotografia, apesar das falhas de adaptação do roteiro. De modo geral, é uma trama que vale a pena conferir.
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