Crítica | "Nascido para matar" e o reflexo de uma sociedade doente


Stanley Kubrick sempre faz críticas filosóficas em seus filmes, estas com assuntos muito variados. Desde a psique humana em Laranja Mecânica até o futuro da humanidade com 2001: Uma odisseia no espaço. Kubrick olhava para o mundo e via sob as lentes da câmera a sua filosofia, e claro que a Guerra do Vietnam não poderia ficar de fora dos aguçados olhos do diretor. O resultado disso é o filme Nascido Para Matar (Full Metal Jacket, 1987), que não só faz uma crítica a invasão norte americana no Vietnam, mas coloca em cheque todo o crescimento da moral que construimos nos nossos jovens.

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No primeiro ato do filme, quando somos apresentados à escola dos Marines, conseguimos já notar a decadência que Kubrick nos aponta. Ainda não sabemos o nome de nenhum dos personagens, mas já somos afrontados com um ser superior a nós, que nos trata como inferiores (reforçado pela câmera em posição de contra pounglée, de baixo para cima), grita conosco e caminha em nossa direção com passos militares. Apesar de tudo isso, ele não nos insulta de fato, mas sim os recrutas que estão lá para serem seus subordinados, e ele se introduz como Sargento Hartman. Ele de início já nos introduz para os dois personagens principais desse primeiro ato, e outro importante para o terceiro. 

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Primeiro nos apresenta Joker, que é o protagonista da história (engraçado pensar, na realidade, como ele primeiro nos apresenta a autoridade, a entidade maior, e depois aquele que vai conduzir o filme. Mais para frente, se torna ainda mais interessante), depois Pyle, um recruta desajeitado que nunca consegue fazer nada direito e Cowboy, um texano que, nesta primeira parte do filme, será apenas alguém com alguma proximidade com Joker. Com o desenrolar do filme Pyle não vai conseguindo cumprir os exercícios e tarefas passadas pelo sargento, e todos estão sendo punidos por isso, aumentando a raiva de todo o pelotão. Numa noite, Pyle é espancado por seus colegas, incluindo Joker, e cria uma espécia de psicopatia típica dos filmes de Kubrick. Na noite em que se formam na academia militar e alguns vão partir para o Vietnam, Pyle pega uma arma e a prepara. Surpreendido por Joker e pelo Sargento Hartman, Pyle mata o segundo e depois da um tiro na própria cabeça. Depois daí, passamos a ver Joker como jornalista da Guerra do Vietnam, porém descobre que funciona mais como uma propaganda da guerra do que de fato jornalismo, e decide ir para o campo. Lá, encontra outros personagens emblemáticos para a trama, como o líder do esquedrão que irá acompanhar, que mata crianças, mulheres, velhos ou qualquer vietcong que estiver em sua frente sem ter o mínimo de peso na consciência. Joker também reencontra Cowboy, que acaba morrendo para uma francoatiradora vietcong, que acaba sendo baleada por um soldado e pede sua morte a Joker, que a mata.

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O filme traz diversos questionamentos sobre a sociedade que vivemos: o respeito a autoridade, como Pyle matando Sargento Hartman, que induz todo o bullying sofrido por ele e, consequentimente, do seu espancamento e suicídio; a midia como propaganda da Guerra, induzindo as notícias para aumentar a moral das pessoas internamente; a dualidade do homem, citada no filme pelo próprio Joker, que usa um capacete escrito “Born to Kill” (nascido para matar) e um broche com o simbolo da paz, que na hora de matar a francoatiradora, no começo do plano começam os dois simbolos em quadro, mas progressivamente o broche vai sumindo e apenas o “Kill” sobra em cena; das imagens dos soldados marchando cantando com a voz do Mickey Mouse; entre outras coisas.

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Kubrick, dessa forma, não faz um retrato da Guerra, não faz uma crítica a morte e ao ato de matar, mas sim a construção do ser humano, a como ele é moldado intensionalmente para a Guerra, para o ato de matar. Tudo o que vemos na TV, tudo o que lemos nos jornais, é tudo manipulado para aumentar nosa moral, para apoiarmos uma Guerra que nem sabemos o porque de estarmos travando, para que mandemos mais soldados morrerem por um objetivo indefinido. Todos nós, aos olhos de Kubrick, somos moldados para matar, tanto na Guerra de fato, ou para apoiar quem atira.
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