O Círculo: Uma realidade distópica em que vigilância e transparência se sobrepõem à liberdade e privacidade


O mundo contemporâneo cada vez mais vem nos habituando a uma vida megaconectada. A difusão da informação e a convergência do mundo físico para o mundo virtual vêm tornando as fronteiras entre público e privado gradativamente mais tênues, assim como têm levado muitas pessoas a uma superexposição e à perda da noção de intimidade. A trama de O círculo aborda justamente essa realidade exageradamente conectada – que acaba por se tornar assustadora.


O enredo acompanha a jovem Mae Holland, recém-contratada para trabalhar em uma das maiores empresas de tecnologia, chamada O Círculo. Localizado no Vale do Silício, o conglomerado, semelhante aos gigantes Google e Facebook, cria uma identidade online única por meio de um sistema operacional universal que conecta e-mail, mídias sociais, operações bancárias e sistemas de compra. Ou seja, tudo o que o indivíduo faz, todas as informações a respeito da sua vida são registradas pelo sistema. Isso tudo é feito baseado em uma política de transparência, a qual evitaria fraudes.

Entretanto, o ingresso entusiasmado na megaempresa, com escritórios e equipamentos ultramodernos, começa a se esvair conforme Mae percebe uma perda cada vez maior da sua liberdade e da sua privacidade para O Círculo: o requerimento do uso constante de redes sociais, o monitoramento das atividades, a permanência nas dependências do conglomerado mesmo fora do expediente. Essas formas de controle tanto físico quanto digital (com o acompanhamento de postagens e a unificação de todos os dados em um sistema universal, assim como o uso constante de uma câmera para acompanhar seus movimentos) vão evidenciando para a jovem que as ações e a proposta da empresa ultrapassam os limites éticos, controlando literalmente a vida das pessoas.


Escrito por Dave Eggers em 2013, ganhando tradução em português em 2014, O Círculo mostra uma distopia num futuro não muito distante em que o monitoramento das informações e dos dados dos indivíduos – e, consequentemente, das suas vidas – chega ao ponto de apagar o senso de privacidade. Com referências claras aos ícones literários de ficção científica 1984, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, a obra traz uma reflexão profunda acerca do uso da tecnologia e do controle social exercido com o seu uso por grandes empresas e, inclusive, dos riscos que corremos, graças ao armazenamento e à exposição de nossos dados pelos sistemas, visto que tudo está cada vez mais integrado e digital.


O livro de Eggers ganhou adaptação cinematográfica com roteiro do próprio autor. Dirigido por James Ponsoldt (O Fim da Turnê), o longa traz um elenco de peso: Emma Watson no papel da protagonista Mae, Tom Hanks como Bailey, o presidente da megaempresa (que surge como uma mistura de Steve Jobs e Mark Zuckerberg), Ellar Coltrane (Boyhood) e John Boyega (Star Wars). Apesar de roteirizado pelo próprio autor do livro, o filme deixa a desejar por não aprofundar diversas questões importantes, apenas passando de forma superficial, além de apresentar uma protagonista apática, que não se move com os impactos de tudo quanto percebe em sua trajetória no conglomerado. A impressão que temos é que a trama seria melhor desenvolvida se fosse adaptada em formato de série, como uma espécie de Black Mirror, que traz temáticas semelhantes (do universo tecnológico), porém de forma mais contundente e aprofundada.

O filme O Círculo estreou nos cinemas brasileiros na quinta-feira passada (22/06) e arrecadou R$ 2,6 milhões.
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