Crítica | O choque social de Capitão Fantástico

Nos surpreendemos sempre com pessoas hermitâs que vivem nas florestas, sem muito acesso à tecnologia, sobrevivendo do que plantam e acham, sem a medicina moderna. Porém, todas estas pessoas nasceram e foram criadas nas florestas de pedra, e depois foram para as áreas verdes. Como seria então uma pessoa criada já na mata? O filme Capitão Fantástico (Captain Fantastic, 2016), de Matt Ross, nos mostra um vislubre do que poderia ser, e ainda mais, a futura contradição com a sociedade moderna.


No filme, vemos uma família de hermitões comandada por Ben Cash, interpretado por Viggo Mortensen, o pai, que se porta como o educador de todos os seus 6 filhos. Em as floresta particular, eles aprendem a sobreviver no melhor estilo No Limite, sempre sendo incentivados, também, a complexas leituras pelo seu pai, que os força a ler desde Os Irmãos Karamazov de Fiodor Dostoiévsky, até sobre física quantica planckiana. Porém, Ben recebe a notícia que sua esposa, Leslie, se mata no hospital psiquiátrico que permenaceu depois que sua depressão e princípio bipolar se agravou. Quando Ben liga para o pai de Leslie, Jack, sobre o Testamento, que diz que sua esposa queria ser cremada ao invés de enterrada, Jack não o escuta e o ameaça caso vá ao funeral. Bem, então relutante a ir ao funeral e enfrentar o pai de sua falecida esposa, cede às pressões de seus filhos, que estavam mais decididos a ir ao enterro.


No caminho, o modelo de sociedade que a família vivia entra em choque com as estruturas que conhecemos, fazendo brincadeiras com o espectador, como por exemplo num momento do filme em que o filho mais novo de Ben pergunta o que é estupro e relação sexual, e o pai explica exatamente do que se trata, usando inclusive termos técnicos. Ou quando Ben enfrenta sua irmã, Harper, mostrando que seus filhos de 13 anos sabem menos da constituição americana (e consequentemente sobre seu sistema de leis) que sua filha de 8, sendo que a mesma não só sabe de cór e salteado, mas sabe interpreta-la com categoria. Essas brincadeiras que o diretor faz conosco já nos faz pensar sobre a moralidade da nossa educação familiar, como nós mentimos para nossas crianças sobre conceitos que achamos que estamos as protegendo sem necessidade. Porém, certas contradições que as crianças são expostas as fazem pensar sobre sua própria educação mais a frente no filme.


Ao chegar no funeral, Ben confronta o pai de Leslie e a igreja, fazendo piadas com o cristianismo e com religiões organizadas, sendo retirado a força ao mando de Jack. Após vários confrontos entre Ben e seu sogro, um dos filhos de Cash, Rellian, foge e vai morar com o avô, alegando que seu pai está estragando sua vida e de todos os seus irmãos os mantendo vivendo fora da sociedade moderna. Quando Ben tenta resgatar o filho da casa de Jack fazendo uma de suas filhas invadir a casa e trazer seu irmão de volta, ela acaba caindo do telhado e se machucando. Esse chega a ser o climas das contradições sofridas pelas crianças e pelo próprio pai, que agora realiza que põs suas crianças em risco desde que começou a fazer essa educação alternativa.



Matt Ross demonstra as contradições da sociedade em que vivemos, onde somos obesos, não somos educados para sermos cultos ou interpretarmos a política dos nosso países, e sim para obedermos. Porém, não faz do modelo de Ben um padrão a ser seguido, já que ele da armas brancas para seus filhos de Natal (que não pe de fato Natal, eles comemoram o aniversário de Noam Chomsky como se fosse), não os ensina a ter o convivio social, além de os expor a perigos constantes. No filme, a República Platônica acaba vencendo sobre os hermitões, demonstrando que não há como viver isolado do resto da sociedade. Porém, apenas os elementos da educação voltada para, de fato, formar a pessoa conseguem nos transformar no que realmente somos, seres sociais. 
Leonardo Gütschow
Leonardo Gütschow

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