Crítica | O sangramento do amor em Annie Hall


Muitos são os filmes de romance que nos mostram como amar é lindo, faz bem, intensificam a vida, nos ajudam a superar medos, ansiedades, a solidão e até nos fazem ser mais eficientes no trabalho, nos hobbies e nas nossas relações com os amigos, sendo mais simpáticos, saindo mais para eventos ou apenas indo ao cinema se divertir, tendo vontades, enfim, pra esses filmes, amor é uma coisa muito sensata a se fazer. Mas Annie Hall (1977) não é um desses filmes, inclusive, é justamente o contrário.



Woody Allen, o diretor, roteirista e ator principal, faz um filme que conta a história de um relacionamento do começo ao fim entre Alvy Singer, um comediante já renomado, com Annie Hall, uma cantora no início de carreira. Tudo contado pela perspectiva de Alvy, ou seja, todos os seus erros ele tenta justificar externamente, e os erros dos outros ele se torna maior, como quem tivesse razão. Isso torna o filme extremamente parcial pro lado dele (todo filme já é parcial pra algum lado, não existe nada imparcial. A questão é que todos tentam ser objetivos, Annie Hall, não), ou seja, tudo o que é contado passa a ser o que Alvy nos conta, nos fazendo comprar as brigas em seu lado. Porém, Woody Allen também faz o personagem transparecer sua chatice, ficando meio incerto se os problemas que aparecem são dela ou dele.



Conforme o filme vai avançando, Allen começa a experimentar diversas formas de linguagem, como colocar uma legenda durante um diálogo entre Alvy e Annie, porém o que está escrito é o que estão pensando e o que gostariam de dizer, e o diálogo é o que eles estão de fato dizendo, isso bem na cena do “primeiro encontro” dos dois, reforçando mais ainda o caráter realista do filme, não sendo idealista nem na primeira vez que os dois personagens principais começam a se conhecer.



Enquanto continua o filme, nós podemos perceber o relacionamento dos dois crescendo, se intensificando, como qualquer outro que tende a dar certo, a primeira vista, até o momento em que Annie se muda para a casa de Alvy, onde os dois, de fato, começam a se conhecer. A partir daí, as contradições do casal começam a ser levantadas, como Alvy seguir Annie para espiona-la, ou ela não querer mais morar em Nova Iorque, e sim na Califórnia, enquanto Alvy é aficionado com em Manhattan.



Você vê a partir daí, o relacionamento dos dois definhando, acabando aos poucos. Eles só brigam, quase não transam mais, tem dois interesses diferentes, duas visões do que pode ser feito, enfim, são duas pessoas que não aguentam mais o relacionamento, ou pelo menos acham isso. Alvy, depois que os dois terminam, se arrepende profundamente, e vai até a Califórnia para pedi-la em casamento e faze-la se mudar com ele novamente. Porém, os dois pedidos são negados por Annie, que depois realmente volta a morar em Nova Iorque com um cara, e se encontra com Alvy como amiga.




Para Alvy, e consequentemente para Woody Allen, o amor é irracional, inconsistente, que deixa marcas, você perde tempo com ele, dinheiro, se frustra, porém precisamos dele. Não podemos viver sem relacionamentos, apesar de a tentativa e erro ser mais erro que tentativa, na visão do diretor e de seu protagonista. Faz parte de nós, queiramos ou não, e precisamos disso para continuar vivendo.
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