Crítica | A moral relativa de O Homem Irracional


Por muitas vezes nos perguntamos se algo que iremos fazer ou fizemos é certo ou errado, quais as consequências de nossos próprios atos, se o que pensamos é justo. Queremos sempre fazer o melhor para o mundo, mas Woody Allen acerta bem em cheio quando faz O Homem Irracional (2015), afirmando de que sempre o melhor do mundo, é o melhor de nossa própria maneira.



O filme conta a história do professor de filosofia Abe Lucas (Joaquim Phoenix), extremamente depressivo, niilista, questionando seu próprio ser e profundamente desiludido com o mundo e a maneira como vive. Ele vai começar a dar aula numa universidade no Departamento de Filosofia, e os rumores sobre ele já começam a rondar o campus, surgindo diversas lendas sobre ele e mitificando seu jeito exótico. Quando chega no seu primeiro dia, Abe já é recebido por diversos professores de diversos departamentos, recebendo inclusive cantadas de uma professora de Química, Rita (Parker Posey). Seguindo sua vida medíocre, ele começa a se relacionar amigavelmente por uma aluna, Jill Pollard (Emma Stone), que começa a se apaixonar por Abe. Num de suas esporádicas saídas, os dois escutam de canto de ouvido uma mulher entristecida, pois um juiz estava sendo injusto em dar a guarda de seus filhos para seu ex-marido, que é o amigo pessoal do jurista. Abe, então, tem a ideia de mata-lo, e isso desperta uma vontade de viver nunca antes sentida pelo protagonista.



Após pensar no crime perfeito, onde nunca seria pego, pois nunca havia entrado em contato com o juiz, não havia motivo e nem relação com ele. Pensou, então, numa arma para o crime e determinou que seria por envenenamento, pegando cianureto do laboratório de química, roubando a chave de Rita, que havia virado sua amante. Após executar o crime perfeito, matando o jurista enquanto ele praticava sua rotina, Abe começa a ter uma vida mais ativa, mais humorada e com mais carísta. Porém, Jill começa a suspeitar que seu professor e amante estava envolvido com tudo isso a partir da teoria que Rita fez em uma brincadeira. Até então que junta todos os fatos e confronta Abe sobre seu envolvimento no assassinato. Relutante em se entregar, ele planeja também matar Jill e fugir com Rita para a Europa. Quando tenta executar seu plano, Abe Lucas acidentalmente acaba se matando.




Cheio de referências filosóficas, com citações que vão desde Kant à Hanna Arendt (nota-se que são sempre autores que questionam e teorizam a moral humana), o filme coloca em cheque a relativização da moral, colocando uma relação de contradição entre a moral exercida pelo personagem Abe, e a moral cotidiana construída pela sociedade. De fato, o mundo apresentado por Woody Allen não é moral de acordo com os conceitos Kantianos, como podemos ver o juiz sendo injusto e Rita traindo seu marido com Abe (e havendo referências de que já trai ele com outras pessoas), e o personagem de Joaquim Phoenix entende isso, e entende que a relativa moral do do seu julgamento também é válida, pois ele estaria eliminando algo injusto da vida de uma pobre mulher, porém não é socialmente aceita na realidade do filme, que é um espelho da moralidade de nosso mundo, tentando fazer um contrapondo com o que vemos cotidianamente. Jovens periféricos sendo presos sem motivo, mulheres estupradas sendo negligenciadas por policiais na hora de fazer o boletim de ocorrência, filhos de desembargadores sendo flagrados com toneladas de drogas ilegais e não indo para a cadeira. Estes são alguns exemplos de injustiças que ocorrem na nossa sociedade, e muitas pessoas tem o impulso de matarem ou aplicarem punições cruéis as pessoas que cometem essas injustiças, porém o filme lhe pergunta: “Isso muda alguma coisa?”
Leonardo Gütschow
Leonardo Gütschow

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