CRÍTICA | O Formidável - O retrato ácido e bem-humorado de um Jean-Luc Godard dividido


Escrita por: Diego Quaglia

Jean-Luc Godard é um dos grandes nomes da Nouvelle Vague (movimento de cinema francês que percorreu a década de 50, 60 e 70), um cineasta varguista, a contribuição de Godard para o cinema é inquestionável e até hoje ele continua na ativa aos 86 anos fazendo filmes. Sua filmografia é rica e com filmes importantes como “Acossado” (1960), “O Desprezo” (1963), “Alphaville” (1965), entre outros. E tão rica quanto a sua filmografia é a sua vida pessoal. Por isso o diretor francês ganhador do Oscar pelo sensacional O Artista, Michel Hazanavicius, viu essa chance de retratar os dilemas de Godard como artista e como homem com esse filme tornando O Formidável um estudo de personagem (na verdade de personagens) que busca analisar a mente de Godard, os seus conflitos e o seu relacionamento com uma de suas musas. Além dos pró prios conflitos dela.


Com roteiro escrito pelo próprio Michel se baseando na autobiografia Un An Après da atriz Anne Wiazemsky (Stacy Martin), O Formidável conta o relacionamento do diretor de cinema Jean-Luc Godard (Louis Garrel) e de Anne Wiazemsky (Stacy Martin) durante as filmagens A Chinesa (1967) e de como foi o tumultuado relacionamento dos dois á partir de então. O filme explora como o ativismo político de Godard afetaram o seu relacionamento com Anne e a sua própria filmografia com ele indo de uma crise pessoal á uma espiral auto–destrutiva, se encerrando em 1969 com o termino do relacionamento dos dois logo depois.




Michel Hazanavicius antes de ficar conhecido pelo seu Oscar por O Artista era conhecido por ter dirigido comedias e depois continuou dirigindo. Esse tom de humor do diretor é bastante presente em O Formidável. O filme não tem vergonha em muitas vezes abraçar a graça, a gozação e deixar claro que não se leva tanto á sério com tiradas acidas e bem ironias que servem muito bem se observamos a personalidade do protagonista do filme. E tanto serve que na grande maioria das vezes isso funciona muito bem. A abordagem mais cômica flui de forma excelente resultando em momentos que são verdadeiramente e bem sacados como uma discussão acalorada em um carro, incidentes ligados aos ósculos de Goodard sendo quebrados em manifestações políticas (o que serve também como alusão á ele estar ganhando uma nova visão) ou um gr ito em protesto que não dá muito certo. Alguns podem ver esses momentos como exagerados e o filme realmente coloca algumas ações do personagem principal como tão patéticas que são dignas de graça alternando entre momentos de humor envolvendo sacadas visuais, o constrangimento que sentimos pela situação enfrentadas em sua maioria pelo personagem principal ou então momentos com um humor mais escrachado mesmo. E todos esses momentos tem graça. Muito disso devido claro á atuação dos nossos dois protagonistas.


Louis Garrel abandona qualquer glamour ou a sua persona de galã em uma caracterização excelente, além disso ele sabe muito bem equilibrar o lado pateticamente cômico do seu personagem pelo seu jeito naturalmente desastrado e o lado mais trágico de alguém que passa por um momento onde está perdido ou passando por uma crise. Seu Godard tem momentos doces e de simpatia, mas Garrel e o roteiro acertaram em não esconder os defeitos dele. Godard é mostrado como alguém egoísta, pretencioso, hipócrita, perdido, ciumento, anti–social, grosseiro, mal–educado, arrogante, inseguro, neurótico, mal–humorado, chato e um péssimo marido, ou seja um verdadeiro escroto, mas o filme nunca deixa de mostrar também a sua paixão tanto por um principio de ideal social maior no seu ativismo político, na sua arte e na sua paixão sincera por Anne. Ele consegue mostrar muito bem o desprezo que pode ser ao mesmo tempo completamente incompreensível ou compreensível dependendo da pessoa que Godard sentia pela sua fase anterior como cineasta que é ironicamente a mais aclamada, que rende vários conflitos dele durante o filme. Sua química com Stacy Martin é perfeita. Ela está excelente como Anne e é uma das melhores coisas do filme, além de trazer um brilho e uma beleza gigante e natural para o papel, Stacy sabe muito bem retratar toda a introspecção de Anne de forma bem sensível, sua Anne é carismática, simpática, educada, doce, sensual, mas retraída, ás vezes sutilmente irônica, acida, muitas vezes submissa á Godard não querendo assumir os problemas da sua relação ou os defeitos do seu amado, ela retrata muito bem uma mulher que ao passar vai mudando a v isão do marido: no começo ela é perdidamente apaixonada por ele e então vemos o seu afastamento dele aos poucos até isso chegar a um ponto sem volta em que o desprezo, a frustação e a raiva dominam a relação. Os esforços de Anne pra salvar o seu casamento e toda o seu sofrimento são o ponto alto do filme em questões dramáticas e funcionam muito por causa da atuação de Stacy Martin.


Outro grande acerto do filme é a maneira inventiva que ele usa a técnica para contar a sua história. A fotografia de Guillaume Schiffman remete á estica de um filme realmente feito na década de 60, o design de produção faz um trabalho formidável de reconstruir a França daquele período e a direção contribui muito para isso colocando imagens que poderiam muito bem aparentar terem sido feitas com câmaras mais antigas. Mas o maior acerto do filme é de forma bem criativa usar esteticamente elementos do cinema de Godard da década de 60, metalinguagem e mudanças bruscas estéticas durante o filme. E a maioria delas funciona muito bem.




A forma que o filme retrata Godard como alguém que não está livre de uma intepretação ou visão artística mesmo sendo um grande cineasta me deixou muito satisfeito. Muitas vezes pode parecer um absurdo alguém como Godard ter a sua figura ridicularizada em um filme, e muitas vezes sendo sincero, o filme ridiculariza mesmo. Mas ele faz isso com tanta graça e com certa criatividade que não dá pra não se apreciar, além disso ele faz isso sem maldade ou malicia, de uma forma até simpática ou leve muitas vezes apesar de não esconder os piores lados do diretor.


Claro que o filme tem problemas, o excesso de nudez da atriz Stacy Martin é usado em um dialogo durante uma cena entre Godard e Anne em que eles tem uma troca de falas totalmente metalinguística brincando com isso e justificam a nudez para o publico rindo de si mesmos (algo que é o filme faz bastante). Essa é uma sacada interessante e a cena é realmente engraçada, mas além dela ter que dizer para o publico qual é o seu principal objetivo, o que é um problema, a própria nudez de Stacy Martin realmente chega á passar do ponto durante o filme em determinadas cenas e não ser tão necessária. Por isso acho que o discurso da cena até tenta se justificar, mas não consegue. Mas por outro lado, ela se fecha bem como uma grande piada que veio de uma sacada. E apesar do casal protagonista estar ótimo, os outros personagens coadjuvantes sã ;o desperdiçados, infelizmente até a excelente Bérenice Beijo (que também participou de O Artista onde teve uma grande atuação) que se limita em ser apenas a consciência de Anne, uma influencia positiva em sua vida e fazer um claro constante com o pior lado de Godard. 


Com citações á François Truffaut, Alain Resnair e a participação especial de Bernardo Bertolucci em uma ótima cena, traz uma visão muito particular do cinema e de um cineasta dividido entre as suas convicções pessoais e o seu lado como artista. Além disso ele mostra como essas crises afetam as pessoas que estão ao seu lado sem ao mesmo se dar conta. E o filme faz isso de uma forma criativa, graciosa, divertida, esperta, acida e que flui durante a sessão resultando em um filme bem agradável com uma visão pessoal e que não cai no padrão da cinebiografia. E isso tudo já são feitos admiráveis.

NOTA: 8/10
Charles Zavaroski
Charles Zavaroski

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