El Chapo | Quando a ficção incomoda a realidade


Se você reparar um pouco, vai perceber que tenho uma coisa com séries latino-americanas. E se me conhecer, vai saber que sou viciada em séries sobre narcotraficantes - dá uma lida na resenha A hora e a vez dos narcotraficantes -, mesmo que isso pareça um pleonasmo. Já vi e li quase tudo o que saiu sobre Pablo Escobar. Ainda assim, não estava muito disposta a escrever sobre outra série com o mesmo tema. Contudo, porém, entretanto e, todavia, aproveitando o embalo do lançamento da 3ª temporada de Narcos (que veio rasgando e é de longe, a melhor), aqui estou para lhes contar sobre a série El Chapo, o conhecido traficante do México, porque a série, de fato, merece, independente do meu próprio vício.


No caso de El Chapo não ser tão ou nem um pouco conhecido para você, ou de você só se lembrar dele por causa da controversa entrevista que o ator Sean Penn realizou com ele em outubro de 2015, Joaquín Archivaldo Guzmán Loera foi, por anos, o narcotraficante mais procurado do mundo. Em 1993, foi preso na Guatemala, e extraditado para o México, para a prisão de Almoloya. Dois anos mais tarde, foi transferido para a prisão de segurança máxima de Puente Grande, em Jalisco, de onde escapou em 19 de janeiro de 2001, dentro do carrinho da lavanderia. Sumido desde então, chegou a ser dado como morto em 2013; mas em 22 de fevereiro de 2014, El Chapo foi detido em Mazatlan, Sinaloa. Em julho de 2015, voltou a fugir através de um túnel cavado embaixo de um dos chuveiros da prisão de segurança máxima, com extensão de mais de 1,5 km, distância que percorreu em minutos a bordo de uma motocicleta adaptada para trilhos. Uma caçada humana, com milhares de policiais e militares, foi iniciada para recapturá-lo, o que aconteceu em 8 de janeiro de 2016. No dia seguinte à sua prisão foi publicada a citada entrevista entre Penn e Guzmán na revista Rolling Stone. Em maio deste mesmo ano, ele foi transferido para uma prisão perto de Juárez, cidade que faz fronteira com o Texas. O governo mexicano inicialmente se recusou a extraditá-lo, porém em 19 de janeiro de 2017, poucas horas antes de Barack Obama entregar a Presidência a Donald Trump, o presidente mexicano, Enrique Peña Nieto entregou o ex-chefão às autoridades dos Estados Unidos, que foi extraditado para uma prisão de segurança máxima em Nova York, onde responde pelas acusações de lavagem de dinheiro e associação criminosa, entre outras coisas. 


Nesse meio tempo El Chapo foi declarado, de acordo com uma edição da revista Forbes de 2009, como o 701° homem mais rico do mundo, com uma fortuna de mais de um bilhão de dólares, tendo sido chamado de "O maior Senhor da Droga do mundo". E acredite, nada disso é spoiler.

Com a primeira temporada com 9 episódios e mais duas temporadas previstas, totalizando 34 capítulos, é tudo isso e mais uma porção de coisas que a série da Netflix, em parceria com a Univision, pretende mostrar. Criada por Silvana Aguirre Zegarra e produzida por Daniel Posada, três palavras definem esta produção. A primeira é: recurso.


A história começa como uma cobertura jornalística, exatamente a partir da última prisão de El Chapo, no momento em que ele chega ao aeroporto da Cidade do México. Utilizando-se das imagens de telejornais e da própria polícia, na hora em que ele está marcando suas digitais, é feita uma transição da última gravação da câmera da polícia para a entrada do ator Marco de La O, de forma muito suave. A partir daí a narrativa volta para 1985, quando El Chapo, apenas mais um homem do baixo escalão do Cartel de Guadalajara, tenta sair desta condição se arriscando a encontrar sozinho, ninguém menos do que Pablo Escobar (Mauricio Mejía, que já havia interpretado Escobar em El Patrón Del Mal e interpretou o paramilitar Carlos Castaño em Narcos), com a ideia impossível de fazer a droga de Escobar chegar em dois dias à Califórnia, quando o tempo normal do transporte era de cinco dias. Começa então um ritmo vertiginoso de se contar a história.


Já no quarto episódio da série, escolheu-se contar o mesmo evento três vezes, sob três pontos de vista. E antes que você diga qualquer coisa, isto não é apenas um recurso de roteiro, mas uma história que se justifica por ser mais amarrada do que você poderia supor. É matéria fina, mesmo.


O mundo do narcotráfico é repleto de nomes, seja dos que o praticam, seja dos que o combatem. Se você não partilhar da minha “dedicação” ao assunto, corre sério risco de se perder. É então que a série utiliza um dos recursos mais legais para te ajudar nesta empreitada: a cada nova entrada de personagem aparece o nome e o “cargo” de cada um, como se fosse um documentário. Apesar de ter tomado um susto quando vi Amado Carrillo Fuentes, mais conhecido como El Señor de Los Cielos, totalmente diferente do ator Rafael Amaya, escolhido para vivê-lo na série de mesmo nome - sério; cheque lá o post A hora e a vez dos narcotraficantes -, o que parece um recurso muito legal, nada mais é do que um serviço a favor da segunda palavra que define esta trama: contraponto.


Entre um cara que mata, mas não sabe beber, que quando cheira cocaína pela primeira vez, enfia o nariz porque não sabe como cheirar uma carreira, existe outra personagem que aparece prontamente e que você logo percebe que vai crescer, mesmo que não manje da política mexicana. Don Sol (Humberto Busto, de Amores Perros), aparece como o subsecretário do Partido Trabalhador Institucional que vai galgando postos dentro do governo mexicano.

Esses dois vão caminhando em paralelo até se encontrarem numa das sequências mais interessantes da série e que, definitivamente, marca o destino de todos eles. Um de frente para o outro, percebe-se que tanto El Chapo como Don Sol querem ser patrões, querem mandar, cada um dentro da sua seara. Um quer ser patrón do mal, do tráfico; o outro quer ser patrón do governo, quer ser presidente e cada um faz o seu. E ambos veem no tráfico a situação ideal para atingirem seus objetivos. Aliás isto esbarra em outro ponto levantado pela série, que é a corrupção, de como o governo tem um conluio com o narcotráfico porque este sustenta a economia do país. 


Com a prisão de seu líder, o Cartel de Guadalajara é obrigado a se fracionar para sobreviver. Neste momento todos os patrões se reúnem. El Chapo vai cumprimentando um por um e você vê os nomes embaixo: Fulano de Tal, Patrón; Sicrano de Tal, Patrón; Beltrano de Tal, Patrón. Nesta divisão, El Chapo ganha a região de Tecate e quando isso acontece, finalmente aparece na tela o nome completo dele, junto da palavra Patrón. De novo, é matéria fina!

Entre tantos, existem ainda mais três contrapontos que eu amaria contar em detalhes, mas que vou deixar você ver e me contar e, que se relacionam com os Irmãos Avendaño, os líderes do Cartel de Tijuana, o Cardeal e os construtores de um túnel, aquela solução de transporte da droga pela qual El Chapo se tornará notório. 


Como toda produção que se preze, a série tem seus altos e baixos, porém bem mais altos do que baixos. Ela vai bem até o episódio 5, que é uma apoteose, dá uma caída no 6 e volta bacanuda no 7, com a fabulosa cena de enfrentamento entre El Chapo e El Señor de Los Cielos. O episódio 8 é um capítulo inteiro sustentado num único lugar e o 9 segue para um final que determina a que a série veio. Existe, claro, aquela necessidade de explicar uma personagem, de se criar uma psicologia que leve a entender alguém antes de amá-lo, que é o que a gente faz na vida e que deveria ser o inverso. No caso de El Chapo, isso passa por um carro branco que aparece insistentemente na série, mas que também tem seu desdobramento. Têm ainda aqueles personagens com quem você se identifica e não quer que morra - quando mataram Rayo, falei “Ah, que pena; ele era legal”. Depois me disse “Como assim o Rayo era legal?” e comecei a rir -, mas apesar desta necessidade, nem de longe isto é uma tentativa de humanizar a personagem; não se engane. E é isso que incomoda em El Chapo.


Tem gente falando mal dessa série, dizendo que é uma cópia fraca de Narcos ou pior do que Narcos e que El Chapo não tem carisma, não cativa. Não caia nessa. Essa série não tem nada a ver com Narcos e quem cativa é a história, porque El Chapo não foi feito para cativar, o que é outra diferença brutal em relação à série El Patrón Del Mal. Na série sobre Escobar, você ri, lá é tudo festa e barulho; em El Chapo a coisa toda é muito pesada, muito tensa, a ponto de você se questionar do que vale tudo aquilo.


Com uma trilha incidental muito boa, um roteiro muito bem escrito e amarrado, uma referência esplêndida a O Poderoso Chefão, atores ótimos e um protagonista de expressão impassível, a série deixa que você saiba de cara, quem El Chapo é, como ele pensa e com quem você está lidando. E isso incomoda tanto, que incomodou até o próprio Joaquín “El Chapo” Guzmán, cujos advogados estão prontos para processar a Netflix e a Univision por estarem explorando seu nome e sua imagem com fins lucrativos ao invés de informativos, de o retratarem de um jeito que não condiz com a verdade, o que pode prejudicar seu processo na justiça, além de constituir ato de discriminação e uma grave violação da presunção de inocência. 


A ameaça de ir à Justiça ocorreu pouco mais de 48 horas depois que uma deputada do estado de Sinaloa, ao qual Guzmán seria ligado sentimentalmente, ter sido presa em San Diego, na Califórnia, por crime de conspiração. Lucero Guadalupe Sánchez, acusada de visitar o chefão do Cartel de Sinaloa, quando ele estava na prisão de Altiplano, foi presa quando tentava buscar asilo político com documentos falsos. Claro que antes disso houve uma história de que El Chapo teria tentado negociar com a empresa de streaming para produzir sua história, o que não deu certo. A Netflix não se manifestou a respeito de tudo isso, mas sabe-se que, por questões de segurança, as filmagens da série foram feitas na Colômbia e não no México e, que as pessoas que viviam próximo às locações foram informadas de que as gravações eram de uma novela chamada “Dolores de Amor”.


E é por tudo isso que chegamos à terceira palavra que define esta série: sensacional! Com um trailer de segunda temporada que já promete o “fervo”, El Chapo é uma das melhores produções da Netflix! 

Assista sem dó!

Charles Zavaroski
Charles Zavaroski

INSTAGRAM