CRÍTICA | Terra Selvagem - A dor da perda e da violência em uma América desconhecida


Terra Selvagem (Wind River) conta a história de Cory Lambert (Jeremy Renner), um caçador de coiotes e predadores traumatizado pela morte de sua filha adolescente, que encontra o corpo congelado da melhor amiga da sua falecida filha no meio do nada. Cory então conta a ajuda da agente novata do FBI Jane Banner (Elizabeth Olsen) para investigar esse crime e guia–lá por essa terra desconhecida, levando essa jovem pela Reserva Indígena onde o corpo foi encontrado e onde os personagens vivem. 

Escrito e dirigido por Taylor Sheridan, roteirista do excelente Sicario: Terra de Ninguém (Sicario, 2015) e o fantástico A Qualquer Custo (Hell or High Water, 2016), Terra Selvagem (Wind River) é praticamente a “estreia” oficialmente pelo menos de Taylor como diretor após ter dirigido o pouco conhecido Vile em 2011.


Esse longa é muito bom, mas também em comparação com os trabalhos anteriores que Taylor Sheridan escreveu para o cinema ele é o mais fraco dessa trilogia informal de  Sheridan sobre o novo Velho Oeste, mas talvez pela grande qualidade de Sicario e especialmente A Qualquer Custo (Hell or High Water), isso não seja um grande problema e essa seja uma comparação injusta devido ao grande nível de qualidade dessas duas obras. 

Dessa vez essa nova obra de Taylor Sheridan consegui atingir o nível da excelência nos momentos em que Taylor cria novamente uma verossimilhança nesse cenário pouco usual retratando uma área muito especifica dos Estados Unidos, que geralmente não recebe nenhum foco, e consegue contar à história que está na superfície da trama de forma interessante enquanto de maneira eficaz também consegue entender o subtexto mais pesado da história sem pesar a mão na hora de abordar ele.


Como em A Qualquer Custo (Hell or High Water), o longa também consegue colocar algumas partes naturais de humor que adicionam um pouco de leveza necessária para a narrativa. Por ser o segundo trabalho como diretor, o trabalho de Taylor Sheridan na direção é bastante impressionante, embora eu ache que ele não atinja uma qualidade tão alta e de forma tão eficaz quanto nas obras–cinematográficas que ele roteirizou. O seu ritmo, apesar de não ser um grande problema ou mal–sucedido, simplesmente não é muito conciso e falta uma cena marcante em Terra Selvagem (Wind River) como a cena do jantar em Sicario ou o final de A Qualquer Custo (Hell or High Water). A direção de Taylor Sheridan acerta muito ao construir uma atmosfera perfeita daquele ambiente, a cinematografia também é bastante eficiente nesse sentindo, fazendo várias tomadas aéreas e explora ndo uma violência não estilizada, que é crua, rápida, forte e impecável, além de utilizar muito bem o trabalho de Nick Cave e Warren Ellis mais uma vez comprovando o seu talento gigante no departamento da trilha sonora conseguindo mais uma vez fazerem composições belíssimas.


O mistério central do filme não é o grande chamariz dele de jeito nenhum, mas ele não é o foco, funciona quase que como um pano de fundo para se chegar á aonde o diretor quer chegar. Estamos falando de um estudo sobre o sofrimento, a perda, o luto, a dor, e o sentimento de seguir em frente... Não esquecendo ou superando o que aconteceu, mas aprendendo á lidar e conviver com isso. A força de Taylor Sheridan como roteirista é em transformar tramas simples e tornar elas estudos muito maiores para se observar e retratar a condição humana em relação á ideias tão simples.



No elenco, Jeremy Renner está excelente naquele que seja talvez o melhor papel da sua carreira, ele carrega uma dor sem igual de forma naturalista e sutil sem ter que dizer muitas palavras, o quanto essa investigação afeta ele emocionalmente da pior maneira possível, a sua dor, o seu luto, a sua real motivação em resolver esse crime e o quão quebrado é esse homem, tudo isso é retratado com perfeição por Jeremy Renner em uma grande atuação. Elizabeth Olsen faz uma personagem que deve inspirar algum debate, no enquanto a sua personalidade ser tão fora da profundidade daquele local faz muito sentido para essa historia lembrando muito a personagem de Emily Blunt em Sicario só que de uma forma diferente. A Banner de Olsen não é só uma forasteira em uma terra estranha e completamente nova ela também é uma iniciante sem muito preparado qu e basicamente está envolvida apenas com o trabalho burocrático do FBI e que é jogada em um trabalho de rotina para um agente de campo, o que não é o que ela está acostumada. O foco da narrativa não é a sua personagem e ela está lá para facilitar a compreensão do publico sobre o cenário e os personagens em volta dele.

 Elizabeth faz isso bem com o seu papel particular em retratar ás reações da sua personagem á tudo aquilo, e criando de forma eficaz as suas frustações sobre tudo em volta dela ao tentar apenas fazer o seu melhor em todas as situações. Elizabeth Olsen enfatiza essas frustações de uma maneira que funciona bem mostrando a sua tentativa de descobrir um caminho melhor, em vez de ficar atolada pelas suas dificuldades e sim tentar superar elas. É uma boa atuação embora o longa todo seja um show pa ra Jeremy Renner brilhar. A atuação de Gil Birmingham é bastante comovente e até um pouco surpreendente divertida no pouco tempo de tela que ele recebe. Ele cria o retrato correto de um jeito muito particular que um homem lida com a sua dor fazendo uma atuação honesta e silenciosamente poderosa. E o veterano Graham Greene poderia ter ganhado mais um pouco de destaque e ter tido mais o que fazer na trama, já que ele é bastante divertido nos poucos momentos sarcásticos e mal–humorados que recebe e que de forma bastante eficaz constrói a pura irritação de um cara que tem que lidar com um trabalho muito maior do que ele realmente deveria receber. Também temos uma rápida porém marcante participação especial de Jon Berthal, e uma participação do ator James Jordan que infelizmente é o ponto mais baixo do elenco em uma interpretaç&a tilde;o irritante da pior forma possível fazendo do seu personagem alguém excessivamente caricatural e que não atinge o tom certo.


Mas apesar de sofrer um pouco em comparação com os seus outros filmes como roteirista, isso como eu já disse não é um grande problema, já que Terra Selvagem (Wind River) consegue ser uma produção de alta qualidade no geral que funciona muito bem por si própria fazendo um estudo preciso da dor do luto e de uma violência infelizmente pouco conhecida.

NOTA: 8
Charles Zavaroski
Charles Zavaroski

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