CRÍTICA | 120 Batimentos Por Minuto - A Militância sendo bem retratada - PREMIERE LINE

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quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

CRÍTICA | 120 Batimentos Por Minuto - A Militância sendo bem retratada


Retratando as vidas intimas do grupo de ativistas do Act Up, grupo de apoio a pessoa com aids, no inicio da década de 1990, 120 Batimentos por Minuto faz uma versão ficcionalizada dessa história, e, em vez de apostar em uma trama especifica, ele opta por mostra esse grupo de pessoas realizando ações pontuais e principalmente o planejamento delas, assim como suas discordâncias, debates, conflitos, preocupações e a relação entre os seus membros. Com o decorrer do filme ele vai acabar se concentrando na relação amoroso que surge entre os membros, Sean (Nahuel Pérez Biscayart, que dá a melhor atuação do filme) e Nathan (Arnaud Valois), que se torna o mais próximo que o filme tem de uma trama central.


Realizado pelo diretor, roteirista e montador marroquino (mas radicado na França) Robin Campillo (que já havia dirigido Garotos do Leste e Eles Voltaram), uma coisa fantástica no trabalho dele é como ele consegue deixar as cenas de discussões sobre os protestos envolventes, interessantes e com um grande peso dramático. O filme também é muito sábio em não se deixar dominar por um maniqueísmo ou ser algo que mostra apenas um lado do manifestante, ele consegue mostrar vários lados diferentes deles ao lidarem com a sua luta e muito bem consegue retratar eles todos e a sua luta com camadas muito diferentes.


É bastante louvável como Robin consegue entender como a dinâmica e o funcionamento de um grupo como o Act Up pode ser complexo, e retrata isso muito bem também trazendo á tona os sub–grupos que existem dentro do grupo por questões de gênero e com tem pessoas diferentes entre si, uma transexual e um ativista surdo servem como exemplo em duas cenas sutis, mas vitais do filme por exemplo.


Mas o maior ponto positivo de 120 Batimentos por Minuto é que ele consegue ser muito inteligente por nunca entrar no terreno que o transforme em uma obra melancólica ou deprimente, o que seria muito fácil. Ele trata sim de um tema pesado e trama ele de maneira seria, mas é sábio ao entender que aqueles ativistas não são “só” ativistas, eles são pessoas de carne e osso, com personalidades próprias, qualidades, defeitos, que gostam de se divertir, sair, amar, brincar, viver, tem amigos e família. Por isso é notável como ele faz uso de momentos de humor em varias cenas e eles funcionam com naturalidade e realmente tem graça em cada um deles.

E também é admirável como a película retrata o peso do drama desses ativistas, já que por estarem infectados pelo vírus eles não tem muito tempo á perder e sabem disso, e o filme retrata os dramas e tormentos dessas pessoas de maneira muito comovente e muito emocional te fazendo sentir toda a gravidade dos seus medos, tristezas e revoltas. Outro fator que impressiona do filme é que ele diferente de muitos filmes americanos, não retrata os seus personagens homossexuais como pessoas assexuadas: nesse filme, seus momentos de sexo, prazer são retratados de forma real e sem pudor algum pela narrativa, muitas vezes, em especial se destaca uma cena em um hospital que traz bem á tona todos os sentimentos que citei anteriormente.  


O jeito que o filme retrata a indústria farmacêutica é bem palpável e transmite a mesma revolta que sentimos para os personagens principais. O longa só peca em alguns excessos nas poucas cenas de “alucinação” digamos assim que não soam muito naturais e quebram a narrativa, mas fora isso, o forte estilo visual de Campillo só acrescenta á história.


Fechando com um epilogo emocional e comovente, 120 Batimentos por Minuto faz retratos precisos sem cair no estereótipo, tem qualidades que se sobrepõe á alguns excessos narrativos e técnicos, é criativo e consegue deixar a mensagem que quer passar de maneira que como narrativa e como técnica não perde nem um pouco o interesse.

O longa já se encontra em cartaz.

NOTA: 9

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