Crítica | Nos Vemos no Paraíso - De forma sensível, anárquica e cínica, longa francês explora a farsa e o melodrama - PREMIERE LINE

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sábado, 14 de julho de 2018

Crítica | Nos Vemos no Paraíso - De forma sensível, anárquica e cínica, longa francês explora a farsa e o melodrama


Nos Vemos no Paraíso, Au Revoir Là-Haut no original, é a adaptação cinematográfica do livro de mesmo nome do escritor francês Pierre Lemaitre. Nos períodos finais da Primeira Guerra Mundial o jovem Edouard Péricourt (Nahuel Pérez Biscayart) acaba se envolvendo em um acidente no campo de batalha que o deixa desfigurado. Com a ajuda de seu companheiro de fronte Albert Maillard (o próprio diretor do longa, Albert Dupontel), Péricourt forja sua morte e coloca em prática seu plano de dar um golpe nos ricos parisienses, no que parece ser uma espécie de vingança pessoal contra os apoiadores da guerra. O primeiro elogio que podemos fazer a Nos Vemos no Paraíso é a seu roteiro - que, por sinal, é escrito por Dupontel e conta com a participação de Lemaitre. Sendo a adaptação de um livro de mais de 500 páginas, o argumento consegue condensar todas as informações importantes da história e apresentá-la ao espectador, sem deixar buracos ou o excesso de informações desnecessárias. E, mais do que isso, há um entendimento muito certeiro da dupla sobre o que desejam contar ao público e do que julgam mais importante ressaltar. E talvez este seja o detalhe mais necessário informar ao espectador.




Olhando rapidamente, Nos Vemos no Paraíso pode parecer incompleto, principalmente se acompanharmos a trajetória de seus personagens secundários. Portanto, dependendo de como o espectador assiste a trama, pode sentir que falta um maior desenvolvimento destes personagens ou uma maior atenção ao tempo de tela destes. Mas isto é, justamente, o resultado da escolha de Dupontel e Lemaitre, que preferem priorizar as informações apresentadas em tela que construirão a historia e o ritmo veloz com que elas se apresentarão ao espectador. O longa é intencionalmente extravagante e naturalista. A trama se estrutura dialeticamente entre elementos do melodrama e da farsa, algo que também lhe dá um caráter mais cênico e teatral. As coincidências, encontros e desencontros parecem ter saído de um texto de Moliére ou de uma montagem da Comédie Française. Em alguns momentos, isso dá uma divertida inocência ao longa. Em outros, pode tirar da ficção os espectadores que necessitam de soluções mais críveis.

Os que conseguirem embarcar em Nos Vemos no Paraíso encontrarão uma história charmosa e sensível. Um humor sombrio, anárquico e cínico permeia a trama, revelando os absurdos de uma sociedade do início do Século XX pós-Guerra Mundial (e que muito se parece com a dos tempos atuais). Apesar de deixar muito claro os arquétipos que os personagens exercerão para movimentar a trama, Nos Vemos no Paraíso deixa espaço o suficiente para a complexidade e moralidade dúbia destes. Por mais que o filme deixe claro quem é o ingênuo ou o vilão, por exemplo, ainda há espaço para agradáveis surpresas e subversões de expectativas.

Apesar de parecer se perder certos momentos entre a jornada dupla de atuar e dirigir, Dupontel mostra muita sensibilidade na movimentação da câmera e direção de atores. Os planos-sequência são bem elaborados e permitem leituras quando comparados entre si. Existem cortes e transições que mais se parecem com produções hollywoodianas do que francesas (não é um juízo de valor, apenas uma constatação). A fotografia realiza um belo trabalho com o sépia, inserindo o espectador em um mundo recentemente abalado pela morte e pela guerra, e hora ou outra atraindo os olhos com cores fortes como o amarelo ou o vermelho. A direção de arte também merece destaque, construindo lugares tão diferentes entre si e que lembram o contraste entre os desenhos clássicos e caricaturas de Pericóurt. O mesmo vale para as diversas máscaras usadas ao longo do filme pelo artista.




Biscayart entrega uma atuação delicada, conseguindo passar as emoções e conflitos de seu personagem apenas com olhares ou grunhidos. Há também um trabalho de máscara e estudo corporal na construção de Péricourt, nos quais o ator consegue encontrar a medida exata entre o teatral e o registro da câmera de cinema. Dupontel cria uma boa dinâmica com Biscayart, e a relação complexa de Péricourt e Maillard é bem interessante. Por mais que Dupontel pareça engessado em sua atuação em certos momentos, repetindo expressões e reações, sua atuação é a espinha do filme e conduz a trama, ligando os diferentes núcleos. O resultado final é mais interessante, em seus erros e acertos, justamente pela multijornada de trabalho de Albert Dupontel. Não tê-lo como ator, roteirista ou diretor no longa seria uma pena. Louise, interpretada pela atriz-mirim Héloise Balster, completa a tríade principal e contribui com leveza e puerilidade. Laurent Lafitte, o Pradelle, faz um antagonista detestável. Émilie Dequenne, a irmã de Péricourt, também tem seus momentos no longa. O ator Niels Arestrup, que vive Marcel Péricourt, merece um destaque especial. O ator faz suas aparições se transformarem em um grande evento. Um trabalho consciente de ator que só a experiência e a idade podem proporcionar.



Enfim...



Nos Vemos no Paraíso é um filme sensível que se estrutura entre a farsa e o melodrama, que lembra um texto de Moliére ou uma montagem da Comédie Française e traz um aspecto quase fabular. Com montagem rápida e dinâmica, o longa não tem os espaços de tempo característicos do cinema francês e é uma ótima opção para indicar para aquele amigo que não gosta (ou tem preconceito) com produções do país. Apesar de abusar das coincidências e de não se aprofundar tanto na psicologia de seus personagens secundários, Dupontel sabe o que quer comunicar e deixa pistas o suficiente para que o espectador se aprofunde nas discussões e temas por si só.

Com uma história divertida de acompanhar, e que pode levar aos sorrisos e lágrimas, Nos Vemos no Paraíso é um filme agradável e carismático. Em tempos onde o cinema se vê repleto de blockbusters e super-heróis, a história anárquica do mascarado e anti-heróico Edouard Péricourt pode proporcionar uma experiência renovadora ao espectador na sala de cinema.

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