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3 de agosto de 2018

Crítica | "O Animal Cordial" - A violência da classe média (S/Spoiler)


Quando dois jovens (Humberto Carrão e Ariclenes Barroso) assaltam um restaurante de classe média em São Paulo, o dono do estabelecimento Inácio (Murilo Benício) e a garçonete Sara (Luciana Paes) tomam ações extremas que levam a um clico de violência interminável e terrível onde papeis sociais são expostos, o que existe de mais sombrio do ser humano vem a tona e o que poderia ser presa se torna predador, fazendo com o que o cozinheiro Djair (Irandhir Santos), o cliente solitário e atormentado Amadeu (Ernani Moraes) e o casal de novos ricos arrogantes e bregas Bruno (Jiddu Pinheiro) e Verônica (Camila Morgado) tenham que tentar se virar no meio desse caos.

Seguindo a linha recente de um retorno ao cinema assumidamente de gênero mas que ainda assim consegue equilibrar isso com um teor brasileiro muito grande (exemplo claro disso é o filme As Boas Maneiras dos cineastas Marco Dutra e Juliana Rojas, e o cinema de ambos como um todo), o filme produzido por Rodrigo Teixeira (de A Bruxa e Me Chame Pelo Seu Nome) é a estreia da diretora Gabriela Amaral Almeida nos longas–metragens depois de uma carreira dirigindo curtas–metragens principalmente. E essa estreia se revela tão interessante quanto promissora.


A diretora Gabriela, que também escreveu o roteiro e é co–autora do argumento, consegue criar uma premissa simples, até comum, mas interessante, criativa e inteligente dentro desse slasher de terror com toques de thriller. Ao reunir no seu filme uma gama grande de personagens completamente diferentes e extremamente conflituosos entre si em apenas uma só locação do começo ao fim, o filme constrói com o seu terror uma alegoria do horror do Brasil moderno que é muito interessante de ser vista e acompanhada. São figuras do nosso dia–dia que em uma situação extrema acabam expondo papeis sociais que vemos no nosso dia–dia e que em situações mais sutis conseguem ser tão horríveis ou tristes quanto. Inácio representa de forma perfeita essa classe média brasileira doentia que se vê como elite mas passa longe disso. É dono de um restaurante que ele vê como sofisticado numa ilusão de se enganar, quando na realidade o lugar é extremamente decadente. Inácio é o patrão que oprime os empregados, tem sonhos de grandeza, é preconceituoso, classista, elitista, homofóbico, xenófobo, reacionário (até chega a dizer “bandido tem que morrer mesmo”, hipócrita e quando uma oportunidade surge deixa fluir toda a sua violência adormecida. Ele é o retrato exato do “homem de bem” de classe media e a sua violência extrema e sangrenta no filme representa a violência que vemos todos os dias aí em discursos de ódio. O que poderia ter começado apenas como uma crítica social a lógica perversa de “justiça as próprias mãos” e “bandido bom é bandido morto”, pode até ter começado assim, mas logo se revela uma critica muito maior, uma crítica a essa camada da sociedade. Uma crítica a relações de trabalho opressoras, a xenofobia, a relações de classe e relações de gênero toxicas. Djair por exemplo junto com os seus colegas é oprimido no emprego pelo seu patrão, além disso sofre preconceito e homofobia principalmente de Inácio por ser nordestino e pelo seu gênero, mas Djair não se intimida com isso, deixa sempre a sua cabeça levantada, luta pelos seus direitos, pelos direitos trabalhistas dos seus colegas e enfrenta Inácio e qualquer um sem hesitar. Já Sara representa aquela pessoa que pertence a um grupo oprimido que se volta para o lado do opressor, aquele que apoia o seu patrão custe o que custa, em uma ilusão de conseguir a sonhada acessão social, assim rejeitando qualquer moral, rejeitando aqueles que estão na mesma situação que ela e se voltando para um sonho falso que acaba a corrompendo de todos os sentidos. Seu relação com Inácio sai da esfera da dinâmica patrão e empregado, ou patrão e aliado, indo para a esfera “mestre e serva” (lembrando a dinâmica muitas vezes de um cientista louco e do seu ajudante Igor de clássicos como Frankstein até pelo estado corporal animalesco que Sara adquiri durante o filme na transformação da personagem) e chega até o mais inusitado possível. A dinâmica dele vira uma historia de um relacionamento sexual e “amoroso” mais doentio, inusitado, toxico e perfeito para essa obra possível. É a dinâmica entre os dois personagens nessa situação que move o filme. Além disso também temos os ladrões que viram algozes nas mãos de um mal desconhecido que se despertar no “homem comum de classe média”, um homem atormentado pelo seu passado de uma violência semelhante a que se depara e um casal de emergentes arrogantes formados por uma perua arrogante, deslumbrada e sem modos e um playoy babaca também coma fragilidade bastante frágil. Todas figuras perfeitas para preencherem os seus papeis nessa alegoria social que filme traça. E o roteiro é muito inteligente em colocar camadas de humor negro em algumas cenas e nos ótimos diálogos que o filme tem para diminuir a tensão constante do filme por algum tempo antes dela voltar, e também para ressaltar o aspecto patético do ser humano.


E essa viés do terror social gráfico e violentíssimo encontra força na direção inspirada de Gabriela. Ela tem um domínio de ritmo exato, tudo na sua direção é muito calculado e feito de forma sistêmica, seja o sentimento de tensão crescente, o sentimento de isolamento pelo filme se tratar em um único espaço e o começo do filme em que somos apresentados a rotina do restaurante com planos conjuntos. A estrutura é de uma peça teatral, apesar do filme nunca se render a parecer “teatro filmado” em qualquer momento, muito pelo contrário. Nesse sentido ele lembra os melhores exemplos de filmes em apenas uma só locação desde Pacto Sinistro até um Jogos Mortas pela tematicamente do filme. Após a apresentação inicial e o evento que marca a virada do filme, Gabriela decide uma estética suja, pesada, se assumindo de vez como o slasher que é, com muito ainda do cinema de terror italiano de Dario Argento a Mario Bava, ela também não se intimida em investir nas cenas mais sangrentas possíveis lembrando na condução dessa violência sangrenta o cinema de David Cronenberg e no uso da violência extremamente crua Sam Peckinpah e em closes exprimindo toda a tensão e isolamento dos atores nesse universo em que a presa facilmente vira o predador, tema recorrente do slasher, que faz com que o filme possa muito bem ser visto em paralelo com alguma obra do diretor Wes Craven, que sempre teve esse tema como constante na sua filmografia e foi um grande diretor desse gênero. 

E o incrível elenco segura bem o filme maravilhosamente. Murilo Benicio está incrível em uma atuação completamente corporal, visceral e que usa muito da sua expressividade e sutileza em cena, criando um personagem assustador que pode muito bem ser considerado um dos melhores vilões do cinema brasileiro sem medo, ressaltando toda a sua insanidade palpável e o seu aspecto patético e frágil. É um dos melhores papeis e o seu melhor papel no cinema desde Os Matadores (1997) de Beto Brant. Luciana Paes é o outro destaque do filme, ela está fantástica também em uma atuação também extremamente corporal que vai se transformando com o passar do filme e adquirindo aspectos animalescos durante a obra, sua construção riquíssima pra Sara é um retrato perfeito de subversão. Além dos protagonistas temos um elenco coadjuvante riquíssimo em mãos, seja um ótimo Ernani Moraes ao mostrar de forma emocionante as camadas escondidas dos seu personagens ou participações extremamente marcantes de Camila Morgado (perfeita também) e Humberto Carrão. Porém quem rouba cena é o sempre perfeito Irandhir Santos, o melhor ator do cinema brasileiro hoje e um ator de uma intensidade invejável, que conseguir um imprimir uma força invejável e extraordinária a um papel coadjuvante mostrando com muito pouco várias camadas do seu personagem e do seu estado emocional.


Mesmo com problemas como um final que apesar de bonito deixa a desejar porque o filme perde a mão na condução do seu ritmo, não sabe onde e como acabar exatamente, o que ele estava fazendo bem,  e acabe fugindo de um impacto mais forte de uma forma desnecessária. E mesmo que muitas vezes alguns temas dos filmes pareçam mais jogados do que realmente aproveitados. 

O Animal Cordial é mais um experimento muito interessante que o Brasil vem fazendo com o cinema de gênero, é um filme que diz coisas muitos interessantes, tem personagens excelentes, um elenco fantástico e mostra uma diretora muito promissora. 

DATA DE ESTREIA: 9 de agosto de 2018

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