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quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Crítica | Para Todos os Garotos Que Amei - Uma rom com que une os millennials e a geração Z


Você pode até não gostar das comédias românticas, mas é inegável que o gênero continua firme e forte desde Shakespeare até os dias atuais. O subgênero, mesmo preso em velhas estruturas e convenções, continua ganhando novos públicos e propondo discussões e perspectivas - e, mais importante, gerando uma resposta positiva do público! Os espectadores, no fim das contas, não se incomodam com estas fórmulas conhecidas, muito pelo contrário, já esperam por elas. Minha visão pessoal (e talvez até um pouco ingênua) para explicar o sucesso das comédias românticas é de que as pessoas são românticas. Todos querem viver grandes romances. Em meio aos clichês e ao brega (palavras bem injustiçadas, aliás) da paixão, o público encontra o prazer de acompanhar e acreditar nas histórias de amor. 

 A memória afetiva do público pede por esses momentos assumidamente românticos, como Heath Ledger descendo as escadas e cantando Can't Take My Eyes Off You, ou homens de sobretudo com boomboxes acima da cabeça, ou grandes sequências de declaração em aeroportos momentos antes do embarque. Sendo assim, o que importa para o espectador de comédias românticas é, antes de tudo, a coragem para se assumir e se entender como uma comédia romântica e uma boa condução da trama - independente de percorrer por caminhos já conhecidos ou não. Alguns acertam, outros caem no caminho do superficial e genérico. E nos últimos anos, os longas que obtém maior atenção do público são aqueles que inovam em seus temas e abordagens, desconstruindo padrões estabelecidos - não necessariamente na estrutura narrativa, mas em sua mensagem. Afinal, nossa visão de amor e relacionamento mudou ao longo dos anos. 

Logo, as comédias românticas tidas como inovadoras são aquelas que, apesar de se manterem fiéis para com as narativas do subgênero, trazem frescor ao compreenderem o coração de seu espectador e o tempo presente. Um bom exemplo disso são os recentes Com Amor, Simon, Crazy Rich Asians e, até, a trilogia 50 Tons.

O fato é que as comédias românticas continuam representando grande parcela das produções cinematográficas, e sempre aparecem no top 5 dos gêneros mais rentáveis do ano. E a Netflix, de maneira muito inteligente, reservou parte de seu catálogo para o subgênero - e depois de resultados inconsistentes, chega ao serviço de streaming Para Todos os Garotos Que Amei, adaptação do livro homônimo da autora  Jenny Han. Dirigido por Susan Johnson (também responsável pela direção e produção de Carrie Pilby) e com roteiro de Sofia Alvarez (Man Seeking Woman), Para Todos os Garotos Que Amei é um filme que possui essa visão esclarecida, se assumindo verdadeiramente como uma rom com e utilizando dos espaços criados na obra para renovar-se e discutir assuntos pertinentes a seus espectadores. 

O longa bebe diretamente das produções do subgênero das décadas de 80 e 90 como Namorada de Aluguel ou 10 Coisas que eu Odeio em Você - isto faz com que se conecte com os millennials que acompanharam estes filmes ao longo dos anos. Porém, traz toda a liberdade, sensibilidade e estilo da geração Z. A construção deste bom equilíbrio torna o filme agradável e acessível a todos, e o dá um charmoso ar de "clássico modernizado". Claro que, para aqueles que não se interessam pelo subgênero ou esperam algo assumidamente inovador, o filme será um punhado de clichês, "mais do mesmo". Neste caso, a imersão e o interesse no filme serão prejudicados.



Lara Jean (Lana Condor) é uma garota que, devido a sua introspecção, vive suas histórias de amor somente no campo da imaginação. Passando parte de seu tempo lendo romances e fantasiando, Lara Jean escreve cartas para os meninos por quais se apaixona afim de expressar os sentimentos que possui. Um destes garotos é Josh (Israel Broussard), o namorado de sua irmã Margot (Janel Parrish). As cartas nunca são enviadas, e ficam guardadas em uma singela caixa azul. Após descobrir que suas declarações foram entregues aos destinatários, LJ terá que vencer sua timidez e seus medos, além de viver uma inesperada parceria com Peter (Noah Centineo). 

 De início, já conseguimos perceber a primeira desconstrução realizada em Para Todos os Garotos: a escolha da atriz asiática Lana Condor como protagonista. Ao modificar a imagem já habitual da protagonista de rom coms o longa proporciona que parte importante do público se reconheça. E não estamos falando apenas da parte da audiência que tenha ascendência asiática! Para Todos os Garotos procura explorar outros padrões de beleza, de dinâmica familiar, de costumes. É uma forma potente de buscar uma real representatividade em cena. O longa também busca investir em apuro técnico, criando personalidade e estética próprias que o distinguam de outros filmes do subgênero (que, normalmente, não tem essa preocupação).

Johnson e o diretor de fotografia Michael Fimognari (Ouija, Jogo Perigoso) propõem quadros belamente montados e que reforçam o caráter intimista dos ambientes - em especial os que mostram o quarto de LJ e os momentos onde a personagem está junto de seus afetos. As paletas de cores criadas utilizam cores pastéis e tranquilas, especialmente o verde e o azul, por vezes quebrando com a inclusão de uma nova cor mais vibrante. O grande problema é que, ao longo do filme, este cuidado estético vai desaparecendo. Chega até a parecer que estamos vendo filmes diferentes quando paramos para comparar os primeiros e últimos 20 minutos.



Outro ponto a ser observado em Para Todos os Garotos é sua atenção aos personagens secundários. O filme constrói personagens carismáticos, como de costume nas rom coms, mas dá oportunidade para torná-los mais complexos e interessantes para a trama. Eles não são meros acompanhantes de LJ, mas parte importante da jornada da personagem. O núcleo familiar construído faz com que o filme, por vezes, fale muito mais sobre o amor paternal, maternal e fraternal. A sinergia entre o elenco também é fundamental para isto, em especial John Corbett, que interpreta o pai, e a atriz-mirim Anna Cathcart, que vive Kitty. Esta mesma cumplicidade em cena pode ser sentida em Condor e Centineo. A dupla entrega casal que com certeza ganhará a simpatia de maior parte do público.

Os personagens menos favorecidos são Chris (Madeleine Arthur) e Gen (Emilija Baranac), a "melhor amiga" e a "rival" da protagonista respectivamente, que acabam não sendo tão exploradas no filme. O fato de serem primas, por exemplo, que poderia criar dilemas e momentos interessantes, acaba sendo somente recurso desnecessário na adaptação.



O saldo de Para Todos os Garotos que Amei é um filme gracioso, que comunica muito bem com os públicos a que se propõe dialogar. Há momentos que falam sobre questões importantes, como o amor próprio, o luto e revenge porn. Por mais que estes não sejam muito aprofundados (e por vezes caem no tom professoral), eles estão ali e precisam estar. Para Todos os Garotos busca quebrar um idealismo construído pelas rom coms (e por Hollywood, consequentemente), uma fantasia, que mais aprisionam os românticos do que os libertam. Existem começos e fins de trajetória amargos e realistas, como na vida. Há ainda fantasia no longa, claro, mas com uma maior sobriedade e camadas de leitura que procuram questionar o espectador - sem nunca perder a fofura.

Enfim...

Para Todos os Garotos Que Amei é um longa que se assume como comédia romântica, buscando nos clássicos do subgênero inspiração para agradar os millennials e usando de abordagem, temas e liberdade moderna para se conectar com a Geração Z. É um filme que utiliza seu espaço para discutir pautas importantes - como representatividade no cinema - e busca construir refinamento técnico e identidade visual que fujam do lugar comum.

Se amar é o que discute-se em comédias românticas, Para Todos os Garotos Que Amei acerta ao se amar e ao se respeitar como rom com e ao amar e respeitar seu espectador. A última e a primeira cena do filme fecham um ciclo e explicitam uma mensagem para o espectador. Então, assista o filme e se divirta. Mas com o pé no chão. Comédias românticas foram feitas para espalhar o amor, não fantasiá-lo.

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