REVIEW | Paradise PD - Uma história de tiras bons e tiras maus, mas sem tiras bons... - PREMIERE LINE

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segunda-feira, 17 de setembro de 2018

REVIEW | Paradise PD - Uma história de tiras bons e tiras maus, mas sem tiras bons...


O "politicamente correto" é um termo que teve seu significado alterado ao longo dos anos. Tendo surgido nos anos 1700, seu sentido era literal. Era usado para determinar práticas que, de acordo com a perspectiva política, eram corretas. Foi na segunda metade do século XX que a palavra ganhou outros significados e camadas, mesma data em que movimentos sociais ganhavam força e se posicionavam. A partir daí o "politicamente correto" começava a definir as melhores maneiras de se referir e tratar as minorias, iniciando uma reflexão para que injustiças sociais e preconceitos velados (em especial, no vocabulário) fossem extinguidos. Algo, obviamente, justo e necessário. Porém, classes que, antes no controle e muito confortáveis com a dinâmica social existente, ao passarem a se sentir "oprimidas" pelas minorias, inverteram o significado do politicamente correto novamente. Hoje, o politicamente correto é usado de forma pejorativa, referindo-se normalmente a tratativas que querem impor uma moral. É a máxima atualíssima "o mundo tá chato demais", ou "geração mimimi". 

Não vamos fazer desta crítica uma discussão ligeira e rasa sobre este assunto, pois ele merece a digna atenção. Falo do politicamente correto para entendermos também o outro lado da moeda, o politicamente incorreto. Assim como seu termo-antônimo, o politicamente incorreto também acabou tendo seu significado alterado ao longo dos anos. Ambas expressões acabaram, por sua dialética, a serem usadas em discussões de espectros políticos opostos. E, no meio deste turbilhão de ideologias, está o humor (que é uma ferramenta política também). O Brasil, que viu a explosão do stand-up nos últimos 20 anos, ainda tenta descobrir os "limites do humor", e não é difícil ver declarações polêmicas de pessoas públicas sendo debatidas internet afora. Essa efervescência também é mundial, principalmente pós-fenômeno Trump. O humor acabou ganhando 2 novas classificações: o humor politicamente correto e o humor politicamente incorreto. A própria FX, nos comerciais da programação do Não Perturbe!, anunciava que era um horário destinado a animações de humor politicamente incorreto. Apesar de ser facilmente reconhecida pelo espectador, cunhar produções como politicamente corretas ou incorretas acabou criando certas barreiras, que afastam o público e criam preconceitos. Se pegarmos a própria programação do Não Perturbe! como exemplo, veremos séries animadas de grande qualidade como Uma Família da Pesada, American Dad, The Cleveland Show e... Brickleberry, de longe a mais suja e despudorada da programação do canal.





E chega ao catálogo Netflix a animação Paradise PD, dos mesmos criadores de Brickleberry Roger Black e Waco O'Guin e que, na verdade, é uma grande reciclagem da série animada anterior. Aqueles que assistiram Brickleberry reconhecerão alguns elementos em Paradise PD, desde a premissa da série animada até o perfil dos personagens. Temos o nerd perdedor e sonhador (Kevin Crawford/Steve), o chefe de meia-idade rabugento e bigodudo (Randall Crawford/Woody Johnson), temos o animal de estimação amoral (Bullet/Malloy), o único negro da equipe (Gerald Fitzgerald/Denzel), a loira supereficiente em seu trabalho (Gina Jabowski/Ethel), o obeso (Dusty/Connie). Até mesmo o design de alguns personagens são reaproveitados, algo que fica ainda mais evidente quando vemos Kevin e 2 caipiras em específico, basicamente os mesmos personagens apresentados em Brickleberry mas com nomes diferentes. 




Apesar disso, Paradise PD consegue se apresentar como algo novo ao espectador justamente por sair do parque Brickleberry e vir até o ambiente urbano, onde consegue comentar e explorar temas que o desenho anterior não conseguia - por exemplo, potencializar as piadas de crack, quase uma obsessão da dupla Black/O'Guin. Algo que também muda radicalmente a série é a dinâmica que cria entre seus personagens. Trazer uma relação familiar para a história e explorar o fato do "personagem não-humano" da vez, Bullet, conseguir se comunicar com os outros personagens é algo que dá material para os roteiristas trabalharem. O fato da série sair diretamente em um serviço de streaming também dá liberdade para que Paradise PD ouse mais. As piadas são mais pesadas, o humor escatológico é mais utilizado, a violência gráfica e o gore são mais presentes. Paradise PD também ganha uma pequena trama que liga todos os episódios, que não é tão levada a sério mas que pode ser intrigante o suficiente para influenciar o espectador a assistir o próximo episódio. Isso mostra a visão dos roteiristas em adaptar o desenho animado aos moldes do "perfil Netflix de consumo", fugindo dos episódios descompromissados e casuais que os desenhos adultos costumam ter na tv - o mesmo aconteceu com a excelente Final Space, (Des)encanto e com as temporadas mais recentes de Os Simpsons, por exemplo. Por mais que Paradise PD entenda isto muito bem, ainda é difícil para maratonar a animação. Muitos espectadores acabarão se acostumando com a abordagem e precisarão parar para respirar um pouco e para que as piadas retomem a potência.




Paradise PD traz novamente aos fãs de animação uma anomia bem gostosa de se ver. Não é um desenho para todos os gostos, fato. O objetivo aqui é ser ousado nos temas abordados e encher o espectador de piadas e informações até que ele se veja rindo de coisas que, normalmente, não riria. E realmente, o cardápio de Paradise DP é bem completo: de toilet humor a piadas com deficientes, passando por piadas sobre sexo e orgias de cães de rua regada a drogas pesadas que termina em ocultação de cadáver (!). Por mais que a série animada circule por alguns "temas" preferidos, é injusto dizer que se trata de um humor fácil ou apelativo. Em Paradise PD também há o espaço para algumas críticas sociais que, por mais que estejam debaixo de dezenas de piadas crack e diarréia, estão lá para questionar o espectador. Violência policial, a guerra contra as drogas, a imparcialidade da mídia, a alienação através da religião, relacionamentos abusivos. Todos os episódios nascem de um comentário, e depois sofrem desconstruções até se tornarem 20 minutos ininterruptos de dirty jokes. Se o espectador fizer o caminho de volta, poderá encontrar pautas bem interessantes. O episódio onde isto é mais aparente é Black and Blue, de longe o mais interessante desta primeira temporada. Claro que isto não muda o fato principal: Paradise PD é uma série que procura chocar o espectador através do humor e não é para todos os gostos.

A dublagem original traz nomes como Tom Kenny (o dublador do Bob Esponja) e Tara Strong (A Arlequina e a Ravena, nas animações da DC) e alguns profissionais que já estiveram em Brickleberry, como David Herman e os próprios Black e O'Guin. A versão brasileira traz boas atuações, apesar de certas escolhas de voz parecerem não encaixar no personagem, faltando organicidade. Muitas piadas se perdem no processo de tradução também - algo natural, mas que pode acabar apagando alguns dos melhores trocadilhos presentes na série animada.

Enfim...

Paradise PD é uma série animada que traz todos os elementos de sua antecessora Brickleberry, mas que aproveita a liberdade do streaming para ser mais chocante, mais despudorada e mais escatológica. Aposta em uma trama que seduza o espectador a assistir o próximo episódio, mas ainda faltam elementos que a torne mais fácil de maratonar.

Paradise PD não é para todos os gostos, fato. Seria o que chamam de animação para adultos "politicamente incorreta". Independente de como utilizamos o termo hoje, para legitimar ou deslegitimar pensamentos políticos e observações sociais realmente relevantes, vamos olhar de outra forma. Vamos nos apegar ao significado mais antigo do termo, mais literal. Todo humor é politicamente correto pois é uma expressão política. Os criadores Roger Black e Waco O'Guin fazem humor desta forma. Agora cabe a você decidir se gosta ou não dele - e seu direito de escolha é totalmente político também.

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