REVIEW | Tom Clancy's Jack Ryan - Jack Ryan é a volta das boas séries de ação - PREMIERE LINE

NEWS

Post Bottom Ad

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

REVIEW | Tom Clancy's Jack Ryan - Jack Ryan é a volta das boas séries de ação


Tom Clancy foi um escritor e historiador americano considerado, ao lado de Michael Crichton, um dos inventores do techno-thriller - ou thriller tecnológico. O techno-thriller é um sub-gênero híbrido que une suspense, espionagem, ação, guerra e ficção científica, sempre com abundância de detalhes técnicos e com foco na discussão de panoramas que refletem a geopolítica mundial. Uma abordagem que usa tecnologias verossímeis para construir sua trama e inserir o leitor no cotidiano da ação militar.

A obra de Tom Clancy alcançou diferentes mídias ao longo dos anos, como livros, filmes e jogos eletrônicos. E agora, pela primeira vez, o personagem principal do escritor ganha uma adaptação em formato televisivo. Tom Clancy's Jack Ryan chega ao Amazon Prime Video, já como um dos maiores investimentos do serviço de streaming, para trazer uma nova versão da história do analista da CIA que troca as mesas e papeladas do escritório pela ação em campo. Desta vez, Jack Ryan (John Krasinski) é um ex-soldado que serviu no Afeganistão e precisa voltar á ativa após encontrar a trilha deixada no sistema por um novo e misterioso terrorista, Suleiman (Ali Suliman), que segundo o próprio analista pode vir a ser "um novo Bin Laden". Com produção e roteiro de Carlton Cuse (Lost, The Strain e Bates Motel) e Graham Roland (The Fringe, Almost Human), a série aproveita o tempo presente para fazer uma atualização de seu personagem-título e, consequentemente, dos protagonistas de séries de ação. Inspirações em grandes séries como 24 Horas e Homeland são perceptíveis, e são utilizadas para construir uma trama que utilize muito bem estruturas que fisguem os fãs do gênero de ação, ao mesmo tempo em que se há uma facilitação que atraia novos espectadores. 



Tom Clancy's Jack Ryan passa por um processo de simplificação, que torna a série muito mais acessível e divertida para o público em geral. Há também uma boa compreensão do ritmo e tempo necessário para contar sua história, o que faz com que os 8 episódios da série sejam bem fáceis de maratonar. Porém, isto acaba fazendo com que a série perca possibilidades de construir uma história mais ousada e inteligente, que aproveite todo o potencial de seu material de origem. Temas como a geopolítica e a relação Ocidente - Países Árabes, por exemplo, acabam por não serem aprofundados. Isto pode acabar afastando os espectadores mais exigentes. Porém, mesmo assim, Jack Ryan ainda traz á tona bons questionamentos - principalmente no que diz respeito a abordagem de seu personagem notório.

Diferente de suas adaptações cinematográficas anteriores ou dos perfis de protagonistas normalmente vistos no gênero de ação, em Tom Clancy's Jack Ryan há a exploração dos aspectos mais humanos e fragilizados de Jack Ryan. O conflito do homem que sai de um ambiente seguro e volta para o fronte está presente, e o passado traumático de Ryan influencia diretamente nas suas escolhas e na psicologia do personagem. Apesar de ser um homem treinado e experiente, Ryan sofre com o hiato que passou longe dos campos de batalha. Não é um super-herói, mas um homem que agora está perdido entre estes 2 mundos. Isso torna as ações muito mais verossímeis e aproximam o espectador do personagem. Outro fator importante é o desenvolvimento da personalidade de Jack Ryan, que tem suas maiores qualidades na inteligência e, por mais clichê que isso pareça, no coração. São as escolhas de Ryan, incorruptíveis, sinceras, bondosas e ingênuas, que acabam movimentando a história. Suas ações se desdobram em acertos e erros, possuem consequências, o que torna o personagem dialeticamente interessante. E todo o charme e carisma do personagem reside na atuação de Krasinski, que consegue entregar um personagem rico e interessante. O ator consegue explorar muito bem com suas expressões facial e corporal, trazendo o medo e o desajuste de Jack Ryan diante dos desafios. Sendo o quinto ator a dar vida ao personagem, Krasinski entrega a versão mais verossímil, sensível e carismática de Jack Ryan.



A construção de Jack Ryan, no entanto, acaba perdendo a atenção do roteiro. A escolha brilhante de dar um grande foco ao desenvolvimento de Suleiman, acaba fazendo com que Ryan só seja explorado de forma mais profunda no final da série, principalmente nos últimos 2 episódios. Isto acaba criando um pequeno desequilíbrio, que faz com que a trajetória do antagonista se torne mais interessante que a do protagonista. Nada que não possa ser corrigido em uma próxima temporada, e nada que atrapalhe a experiência do espectador. Na verdade, é até interessante para o espectador assistir algo que se proponha a uma nova perspectiva. Essa inversão de estrutura narrativa, que nos apresenta primeiro o antagonista para depois focar no protagonista, é um dos maiores acertos do roteiro ao pensarmos em construção de relação entre os personagens.

E é isto que acaba nos dando outro dos maiores acertos de Tom Clancy's Jack Ryan: Mousa Bin Suleiman. Sem construir uma caricatura de um terrorista árabe ou mesmo sem ser condescendente, a série nos apresenta um antagonista dialético e que nos convida a repensar a linha entre o certo e o errado. Mérito da atuação complexa e deliciosa de assistir de Ali Suleiman, ator equilibradamente carismático assim como Krasinski. Há também bom uso dos flashbacks para revelar as motivações e a história de Suleiman.


Distante dos dois pólos principais, a série sofre para encontrar o ajuste correto entre as subtramas que constrói, que por vezes acabam causando a sensação de não terem sido bem "encaixadas". Falta fluidez. Porém, isso não impede que as trajetórias construídas sejam interessantes, em especial a de Hanin e seus filhos, que conta com uma performance grandiosa de Dina Shihabi. Cathy (Abbie Cornish) tem um percurso interessante, que visa posicionar a personagem como uma mulher forte, mais do que um interesse amoroso do protagonista. Apesar do esforço, a personagem acaba sem objetivo concreto na trama - além de humanizar Ryan. O mesmo acontece com Victor Polizzi (John Magaro) que, apesar do belo percurso percorrido, acaba por ficar alheio demais na trama principal. James Greer (Wendell Pierce) estabelece uma boa relação com Jack Ryan, que apesar de não explorar sua máxima potencialidade, abre possibilidade para as futuras temporadas. O desenvolvimento dos personagens secundários acabam, de certa forma, comprometidos pelo tempo de tela. Porém, há em Tom Clancy's Jack Ryan uma preocupação em torná-los humanos verossímeis, dialéticos. Algo que é ainda mais evidenciado por seu elenco virtuoso, que aproveitam ao máximo suas aparições para torná-los atrativos.

Enfim...


Tom Clancy's Jack Ryan é a volta das boas séries de ação e espionagem. Aposta certeira da Amazon Prime Video, apresenta o gênero para novas audiências e agrada os fãs de longa data. Cada episódio reserva ao menos uma grande sequência de ação, bem dirigida, com bom uso da geografia do espaço e que se liga com a construção dramática proposta. O espectador realmente se importa com os personagens pois são desenvolvidos com atenção pelo roteiro - que ainda conta com a vantagem de ter um elenco primoroso, em especial John Krasinski e Ali Suliman.

Apesar de sofrer ainda com a fluidez da inserção de suas subtramas e não aproveitar ao máximo a discussão geopolítica presente na obra de Tom Clancy, a série procura ressaltar a complexidade dos conflitos entre Ocidente e Oriente e a dialética presente na humanidade das pessoas que vivem estas guerras. Tom Clancy's Jack Ryan é uma série que faz jus a seu material de origem. Então, para aqueles que conhecem o universo de Tom Clancy dos livros, filmes e jogos, é uma ótima sugestão. Jack Ryan está de volta - e mais humano do que nunca.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Post Top Ad

Pages