CRÍTICA | A Casa Que Jack Construiu - O cinema que Lars Von Trier construiu - PREMIERE LINE

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quinta-feira, 25 de outubro de 2018

CRÍTICA | A Casa Que Jack Construiu - O cinema que Lars Von Trier construiu

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É comum ouvirmos, vez ou outra, que um filme é "pretensioso".Particularmente, este é um adjetivo que acho injusto e impreciso. Afinal, o que exatamente é um filme pretensioso? Se verificarmos o significado literal de "pretensioso", veremos friamente que todos os filmes são pretensiosos. Afinal, todos os filmes querem atingir algo, serem relevantes, alcançarem objetivos. Mas o "pretensioso" nestes casos entra em outros aspectos. Normalmente, o espectador que usa esta palavra está tentando definir mais o artista do que a própria obra em si. E é isto ao meu ver que, na maioria das vezes, é errado. É necessário descolar a obra - a arte criada - do criador. Pouco importa tudo o que é dito por outro que não seja a própria obra. A própria obra se define, para o bem e para o mal. É necessário se distanciar para ser justo - inclusive consigo mesmo, pois é um grande desperdício não se dar a oportunidade de absorver uma obra de arte por conta de pessoalidades, simplesmente por negar vivenciar a experiência cinematográfica.

 Existem diretores que possuem o rótulo de "pretensiosos". Sejam por suas obras polêmicas e/ou de apelo polarizante, por suas vidas além dos sets, opiniões políticas ou declarações controversas. O dinamarquês Lars Von Trier é um deles - e consegue cumprir todos os requisitos acima. E depois de 3 anos o cineasta está de volta com A Casa Que Jack Construiu, que teve reações divididas em Cannes e agora chega na Mostra Internacional de Cinema. No longa, acompanhamos a narração do serial killer Jack (Matt Dillon) a Virgílio (Bruno Ganz), que conta sobre sua história de vida a partir de 5 incidentes específicos. Se em Melancolia Lars Von Trier faz sua própria versão de filme catástrofe, em A Casa Que Jack Construiu o diretor busca inspirações no slasher e no exploitation. Tudo com um grau de refinamento e conceptualização grandioso, como de praxe em seus trabalhos. Trier gosta de incomodar, tirar o espectador de um lugar passivo de consumo da obra cinematográfica. Chocar, pra Trier, é despertar o público para ver o mundo e a arte. Trier é um dos poucos diretores que traz uma rica lógica cênica para o cinema. Sua estética, composições, discussões e até mesmo o tempo de duração de seus filmes lembram o teatro de vanguarda do século XX e contemporâneo europeu. Assistir a obra de Lars Von Trier é, portanto, uma experiência rica e única. Antes do simplório "gostar" ou "não gostar", a obra simplesmente deseja causar reação no espectador e fazê-lo, de fato, sentir e pensar sobre o que assistiu.


E em A Casa Que Jack Construiu não é diferente. É puro Lars Von Trier do começo ao fim. Porém, dentro de sua proposta em causar o desconfortável e descobrir novas formas de criar a crueldade - para o público e para si mesmo - Trier parece mostrar sinais de cansaço. A lógica é simples. Se em cada obra Lars Von Trier aumenta gradativamente seu impacto, para onde vai em sua próxima obra? Há um limite? O "limite" que questiono aqui não é da arte em si, mas do próprio artista, que já concluiu sua pesquisa e precisa achar novas possibilidades dentro dela. No anterior Ninfomaníaca Trier nos deixa essa pergunta, que agora se fortifica em A Casa Que Jack Construiu. O longa é irregular, se perdendo em sua própria proposta e momentos de divagação. No começo desta crítica, comentei sobre a adjetivação errada de "pretensioso". No caso de A Casa Que Jack Construiu, não posso retrucar aqueles que desejarem taxar a obra de tal forma. Não concordo que seja pretensiosa, apenas sou coerente para entender os pontos que farão com que muitos a rotulem desta maneira. Ao contar a jornada do assassino bruto, narcisista, genial e antipático que acredita que na decadência encontra-se a arte pura, Trier nos fala mais sobre si, do que sobre Jack. O filme inteiro é uma ode à maneira de como Trier enxerga a arte e a sua obra. O diretor não se contenta apenas em criar uma camada de interpretação para incluir esta leitura na obra, deixando isto claramente na tela de cinema ao referenciar seus trabalhos anteriores, incluindo-os em discussões sobre a arte, ao lado das maiores obras de pintura, engenharia e arquitetura da história humana. Durante um longo trecho do longa, Lars Von Trier comenta diretamente sobre as polêmicas que o levaram a ser banido do Festival de Cannes, retomando sua discussão sobre genocidas. Autoindulgente? Cabe ao espectador decidir. O fato é que, ao quebrar a ficção de forma tão deselegante e arrogante, Trier acaba reduzindo a dimensão de seu próprio trabalho e acaba perdendo o foco narrativo e a elegância, que são preciosidades de sua direção.


Mesmo assim, A Casa Que Jack Construiu é um filme que merece ser assistido. Tanto por aqueles que já conhecem a obra do cineasta, como também por aqueles que desejam conhecê-la. A fotografia é o resultado de mais uma parceria entre o diretor e Manuel Alberto Claro. Os inconfundíveis planos com a câmera na mão, bem próxima, trazem intimidade para a cena. É o que faz com que a brutalidade seja ainda mais impactante para o espectador. E em A Casa Que Jack Construiu, em especial, o gore e a violência estão mais presentes. Mas não é só a violência gráfica que causa desconforto. A jornada psicológica pela mente de Jack é de embrulhar o estômago, e são o que o tornam odioso. Se Hollywood costuma nos trazer psicopatas carismáticos, Trier busca não ser condescendente para que suas ações tenham um peso odioso aos nosso olhos. O roteiro, desequilibrado, acaba por colocar o tom vertiginoso no longa. Em cada um dos incidentes conhecemos aspectos diferentes de Jack, o que traz irregularidade ao roteiro mas acaba por tornar o personagem principal misterioso e incompreensível. Trier, em seu desleixo proposital, acaba por nos trazer um humor mais escrachado do que o habitualmente visto em seus trabalhos. A todo momento brincando com o patético, com o indulgente e beirando o farsesco, o diretor nos dá momentos risíveis e refinadamente cômicos. Os trocadilhos e duplos-sentido, como o diálogo envolvendo um macaco de carro quebrado ("a broken jack", no original) são interessantes - boa parte deles, infelizmente, se perdem para aqueles que se guiam apenas pelas legendas.


Matt Dillon está muito bem no papel de Jack, conseguindo lidar muito bem com as mudanças bruscas em sua personalidade. Uma atuação dificílima, onde o ator consegue imprimir verdade e peso nas medidas certas. Se há irregularidade no personagem, a culpa não é do ator, mas da concepção do personagem por Trier. Os diversos personagens de apoio contam com atuações de luxo, como Uma Thurman, Sofie Grabol, Siobhan Fallon Hogan, Riley Keough, Ed Speelers e Jeremy Davies. Bruno Ganz divide o maior tempo de tela com Dillon, na maior parte das vezes apenas com sua voz em off, mas sempre com emoção certeira e a profundidade de um ator com sua experiência. O ator só irá aparecer em carne e osso ao final do longa onde, como no início de Melancolia, Trier insere imagens lúdicas e com aspirações renascentistas e líricas. Belas imagens, que por vezes carregam mais forma do que conteúdo. Em meio aos diálogos professorais, ora prazerosos, ora enfadonhos, Trier deseja se comunicar com o espectador, fazer alguns mea culpa, cometer novos erros. Mesmo não estando em sua melhor forma, os filmes do diretor são únicos no cinema atual. A ida ao cinema se faz quase obrigatória, independente de como o espectador saia de lá. 

Enfim...

A Casa Que Jack Construiu é Lars Von Trier em sua energia provocativa de praxe, querendo a todo instante incomodar o espectador. Apesar de não ser um de seus melhore trabalhos, o filme ainda é uma experiência cênica rara de se ver no cinema, carregada de lógica teatral e que procura colocar o espectador ativamente em seus acontecimentos, em suas mensagens. Se colocando de forma autoindulgente no filme, Trier está reduzindo sua obra e abrindo espaço para ser criticado - e com razão. Mas é isto que ele faz, sempre. Portanto, não é de surpreender aqueles que já conhecem sua obra. Este é o cinema que Lars Von Trier construiu. Resta ao espectador decidir se quer viver nele ou não.

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