CRITICANDO | "Creed II" peca na originalidade, mas consegue manter a essência - PREMIERE LINE

CRITICANDO | "Creed II" peca na originalidade, mas consegue manter a essência

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O primeiro Creed foi um sucesso improvável. O diretor Ryan Coogler conseguiu extrair do Rocky IV, o momento mais ridículo da série, um filme íntimo, emocional e tecnicamente sofisticado que vai além de um mero spin off. Ele cria um espaço próprio nesse universo e usa a nostalgia da série de Sylvester Stallone para se enriquecer, sem se tornar dependente dela. Agora com a continuação, a série precisa provar que tem longevidade para se sustentar sozinha.

Mas vamos ter que esperar mais um pouco por isso, porque os produtores decidiram que ainda precisam resolver algumas pendências dos filmes clássicos.



O filme mostra agora um Adonis Creed (Michael B. Jordan) no melhor momento de sua vida: Recém campeão de peso pesado de box, noivo da sua esposa Bianca (Tessa Thompson) que agora assinou contrato com uma gravadora, em uma boa relação com a figura paterna Rocky Balboa (Sylvester Stallone) e sua mãe Mary Anne (Phylicia Rashad). Mas isso tudo muda quando Ivan Drago (Dolph Ludgren), o homem que matou seu pai, ressurge desafiando Adonis para lutar com o seu filho Viktor (Florian Muntenau), trazendo à tona parte do legado de Apollo Creed que ele achava que tinha superado, e a situação se torna ainda mais tensa quando o ele descobre que Bianca está gravida. Depois de uma série de provocações na mídia e ignorando os avisos de todos que o amam, Adonis aceita o desafio, mas perde de forma vergonhosa. A derrota deixa Adonis em crise, e ele se vê forçado a reavaliar tudo que o define.


Até pela própria premissa, o filme já não tem o diferencial que o primeiro Creed tinha. Já é dificil tentar superar a direção primorosa e pessoal que Ryan Coogler usou para revigorar a franquia, e não é surpresa que o novo diretor Stephen Caple Jr, não consiga se igualar ao anterior. A fotografia a edição são o mais padrão possível para esse tipo de filme de esporte e a trilha sonora de Ludwig Göransson, com nomes de peso como Kendrick Lamar, Lil' Wayne e Nicki Minaj, por mais que ajude muito na na criação da atmosfera, não faz milagres. A história segue os moldes já bem familiares do campeão que cai do pedestal por arrogância e tem que recomeçar do zero para retornar à gloria (Que já foi a trama de alguns Rockys). Mas o elenco primoroso consegue elevar o roteiro acima da mediocridade que deveria ser. O Michael B. Jordan vive um Creed muito mais complexo, cheio de raiva gerada por confusão e o medo que vem quando seu mundo é abalado, e os conflitos que isso causa em seus entes queridos. A Bianca vê o seu futuro promissor sendo possivelmente sabotado pelas ações irracionais do companheiro. E o Rocky, sempre um mentor caloroso e compreensivo, se vê impotente para impedir que história trágica que ele vivenciou se repita com Adonis. Os atores trazem para o filme a sensação de que esses personagens são uma autêntica família passando por dificuldades, dando peso às lutas e sequencias de treinamento que por si só não se destacariam. Quando Creed vai ao ringue, torcemos pra ele porque torcemos para essa família vencer.

Infelizmente, a outra família do filme não tem o mesmo carisma. O filme tenta humanizar os Drago, mas não passa tempo suficiente com a dupla para conquistar a simpatia do público. Há indícios de um passado sofrido de Viktor, que foi criado por um Ivan amargurado após perder tudo na fatídica luta contra Rocky. E mesmo com interpretações muito boas da parte de Ludgren e Munteanu, as interações entre pai e filho não tem o impacto que deveriam ter, e carecem de desenvolvimento comparados ao núcleo "do bem". Sem contar a chance que o filme perde de recontextualizar a parte mais absurda da série Rocky. 



Creed II é um filme que por pouco não cai na armadilha de tirar o foco dos personagens para dar espaço a mais ação. Mesmo não chegando no mesmo nível que seu antecessor, o diretor Stepehn Caple Jr. coloca novos (velhos) desafios no caminho de todos os personagens, criando uma história competente sobre identidade, legados e encontrar o seu próprio rumo. Mas depois de dois filmes a franquia vai ter que começar a seguir as mensagens que prega. Por mais gratificante que seja revisitar a vida dos personagens que tocaram nossos corações no passado, a série Creed não pode mais depender da nostalgia do público. Ela já prestou homenagem (E como!) ao que veio antes, mas agora já é hora do Creed ter uma identidade própria.

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