CRITICANDO | Bird Box - A Netflix segue provando que é o melhor lugar para originalidade - PREMIERE LINE

CRITICANDO | Bird Box - A Netflix segue provando que é o melhor lugar para originalidade

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A dominação cultural que a Netflix tem sobre os nossos hábitos é uma faca de dois gumes. Por um lado, a ideia da nossa dieta cultural estar cada vez mais atrelada a uma inscrição mensal que nos dá acesso limitado a uma seleção de filmes e seriados cada vez mais limitado (Quantos filmes de antes da década de 80 estão disponíveis hoje no catálogo da Netflix?) me faz temer pela memória cultural da geração atual que só assiste o que a plataforma os oferece. Porém, em um mundo onde os cinemas estão cada vez mais lotados de filmes de franquia, reboots ou longas que são feitos já pensando nas próximas 3 continuações, um cenário onde a Paramount Pictures desistiu de lançar o incrível Aniquilação nos cinemas por medo de não ter retorno, é bom saber que a incrível lucratividade da Netflix é um porto seguro para projetos criativos e diferenciados como o thriller Bird Box.

O filme, da diretora Susane Bierr, mostra Malorie (Sandra Bullock), uma pintora antissocial que se encontra numa gravidez indesejada no pior momento possível. O mundo é assolado por uma epidemia de... algo. Quando essa coisa é vista por alguém, faz essa pessoa viver seus piores medos e se suicidar, causando uma devastação imensa em todo o mundo. Depois de perder a sua irmã para esse fenômeno misterioso, Malorie se vê confinada em uma casa de Douglas (John Malkovich), com outros sobreviventes, com as janelas bloqueadas e só podendo sair de casa com os olhos vendados e usando pássaros, que são capazes de detectar a presença da entidade. A trama então se alterna entre dois momentos: O primeiro mostra a convivência do grupo na casa, com a tensão e paranoia crescentes conforme a situação se torna insustentável. O segundo, cinco anos depois, acompanha Malorie guiando os dois filhos, que ela chama simplesmente de Menino e Menina, pelos perigos da natureza em busca de um novo abrigo, com os três de olhos vendados durante o percurso todo, tendo apenas uma caixa com pássaros dentro para avisá-los do perigo.


O Bird Box é um clássico caso de um conceito interessante que depende totalmente de execução para funcionar. A própria premissa da história, um fenômeno misterioso que não pode ser visto, faz com que a velha máxima de "menos é mais" seja obrigatória. Tem todos os clichês de filmes apocalipticos: Um grupo de pessoas forçadas a conviver juntas, onde o desespero é tão perigoso quanto a ameaça externa e onde a situação pode explodir a qualquer momento. Mas tudo isso favorece a história. A Bierr cria uma sensação de claustrofobia percorre o filme todo, seja na casa totalmente bloqueada, as viagens de carro com janelas tapadas por jornais ou só planos extremamente fechados que permanecem nos rostos tensos dos personagens por tempo demais, o público fica tão confinado e incomodado quanto os personagens. A fotografia, o design de áudio e a trilha sonora sempre extraem da cena o máximo de tensão só com a atmosfera que cria, sem nunca apelar para sustos baratos.

Mas o destaque do filme é a atuação dos personagens: A Malorie é uma protagonista fascinante: Se antes ela era fechada, as circunstâncias a forçaram a praticamente abrir mão de emoções para sobreviver. A forma rígida que lidera os filhos, não dando nomes, tratando como soldados, mostra um tipo diferente de dedicação materna, em que o amor pelos filhos é tão grande que ela não pode se dar o luxo de expressá-lo. Bullock da a essa  mulher uma sensibilidade sutil, onde o peso da liderança é constante e desgastante. É um papel que vai completamente na contramão dos papéis femininos, e explora os formas diferentes em que o afeto pode se manisfestar. Em contrapartida temos Tom (Trevante Rhodes), sempre otimista e acolhedor, atitude que o põe em conflito com Malorie, mas também os atraem. Douglas, cuja esposa morre salvando Malorie, tornando ele amargurado e sarcástico, sempre esperando o pior das pessoas. E Olympia (Danielle Macdonald), outra mulher grávida e completamente inocente. Ao ser forçada a interagir com essas pessoas, Malorie se torna mais capaz justamente por ter por quem continuar lutando.


Bird Box é o tipo de filme que Hollywood tem cada vez mais receio de fazer. Um roteiro forte, com atuações potentes e uma premissa com muito potencial contanto uma história que raramente tem espaço nos blockbuster atuais. Filmes como esse mostram o que estamos perdendo por não apostar em ideias novas, não dar mais chances a diretores com perspectivas diferentes, não nos limitarmos aos clichês de gênero. Foi um privilégio para este que vos fala poder conferir o filme numa tela grande na CCXP, pois é uma experiência que vale a pena ser vista nos cinemas. É uma pena que esse tipo de filme só seja viável num serviço de streaming, mas se é a unica forma de que filmes desse tipo possam ser aprovados, é um pequeno preço a pagar.

Desde que você não se importe em ver numa tela menor.

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