CRITICANDO | Encantado - Animação peca pela falta de encanto - PREMIERE LINE

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quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

CRITICANDO | Encantado - Animação peca pela falta de encanto



Nos últimos 20 anos as animações em 3D tomaram as salas de cinema e substituíram gradualmente o 2D. A Disney, que sempre esteve na liderança do mercado, teve a visão necessária para acompanhar o progresso e praticamente impulsioná-lo, realizando uma das parcerias mais bem sucedidas da história do cinema com a Pixar. E durante muito tempo, a Disney/Pixar permaneceu inalcançável, vendo outras empresas e estúdios de animação correndo atrás para recuperar o tempo perdido.

Hoje, pode-se dizer que o segmento de animação é mais democrático. O avanço da tecnologia e da concorrência, assim como uma maior facilidade da profissionalização na área, fez com que a qualidade das animações se equilibrasse. E a qualidade não se reduz apenas ao desenvolvimento da animação em si, mas do roteiro, direção, trabalho de dublagem, marketing e distribuição. Apesar de ainda deter um certo "top of mind" do público e de seu monopólio nada sutil nas premiações, a Disney não é a única referência em animações. Dreamworks, Warner, Blue Sky, Illumination e tantas outras também marcam presença anualmente nos cinemas e emplacam grandes sucessos de bilheteria, e personagens que acabam por cair no gosto de crianças e adultos e se desdobrarem em inúmeros produtos. Hoje, as animações estão em um patamar completamente diferente - e é dificil encontrar uma animação que não se mostre um trabalho interessante.

A 3QU Media, a Vanguard Animation e os produtores John H Williams e Henry Skelsey, (Shrek) lançam nos cinemas brasileiros a animação Encantado, que conta a história do Príncipe Felipe Encantado dos contos de fada, um homem atormentado por uma maldição que faz com que todas as mulheres se apaixonem por seu "sorriso irresistível". A chance de virada do Príncipe está na ladina Lenore, a única mulher que não foi afetada pela magia - exatamente por não aceitar o amor. A história é simplória e fácil de acompanhar, mas o roteiro se mostra frágil e pouco audacioso. Há uma falta de equilíbrio, que nasce principalmente pela falta de percepção do público que deseja atingir. Ao passo que o filme deseja introduzir abordagens mais maduras - visando o público adolescente e adulto - ele também busca inocência e gags visuais que comuniquem com as crianças. É uma tentativa de agradar a todos os públicos, caminho que já foi entendido por outros estúdios, mas que aqui ainda não foi compreendido. É uma questão de experiência também, algo que com certeza servirá de reflexão para os produtores executivos, para a #QU Media e para o diretor Ross Venokur (Roteirista de Game Over e The Tick, que ainda possui poucas trabalhos como diretor)




Dessas indecisões, podemos ilustrar com alguns exemplos. O longa possui poucas músicas, exatamente para que não cause cansaço no público mais adulto. Porém, é algo que ao longo da exibição, dispersa e entedia as crianças, que precisam ser estimuladas constantemente. Fato curioso também se levarmos em conta o time de dubladores da versão original, que conta com nomes como Demi Lovato, Avril Lavigne, SIA, Ashley Tisdale, John Cleese, Tara Strong e Wilmer Valderrama. Encantado, portanto, acaba desperdiçando o potencial destes profissionais - e usando-os mais como um atrativo para vender ingressos. O longa também possui piadas bem adultas, que passam batido pelos pequenos mas que são facilmente compreendidas pelos pais. Porém, mais uma vez, o medo de se assumir acaba deixando o longa perdido e não possibilita a construção de um tempo de comédia. Em outros momentos, também utiliza de violência gráfica que hoje já é bem difícil de se ver em produções de classificação livre, como armas brancas, forcas e palavras mais fortes como "matar" e "assassinato". Algo que pode incomodar e pegar de surpresa alguns pais, mas que em nada afeta a obra ou sua mensagem.

A qualidade da animação é competente e, apesar de parecer inferior se comparado ao trabalho dos grandes estúdios da atualidade, constrói texturas e soluções interessantes. O maior acerto é a reprodução da madeira e do ferro. Já tecidos orgânicos, cabelos, pêlos e penas ainda destacam-se pela artificialidade, sendo algo que o estúdio precisará rever nos próximos trabalhos. Por outro lado, o filme constrói uma boa sensação de profundidade - uma pena que paisagens e cenários não são tão explorados. Em todos os aspectos técnicos necessários, o longa realiza o necessário, o mediano. Não ousa, mas também não erra rudemente. Acaba sendo uma animação que será marcada como "genérica", justamente por não ter a ousadia e criatividade necessária para ser marcante como as animações de outros estúdios. O roteiro é linear, não traz conflitos empolgantes e não traz grandes variações e reviravoltas no ritmo da jornada dos protagonistas. As músicas são competentes, mas as originais levam vantagem sobre as da versão brasileira, que peca no trabalho de tradução. A tradução das falas e diálogos também fica comprometida, e muitas piadas acabam sendo ignoradas e/ou perdendo completamente o sentido.




A dublagem de Encantado cai na armadilha de sempre: deixar o trabalho de dublador para nomes famosos, priorizando marketing em vez de qualidade. Porém, é possível compreender que a animação precisa recorrer a estas estratégias de marketing para atrair o público e poder competir na bilheteria. É muito mais compreensível que a 3QU Media recorra a este artifício, em vez de gigantes como a Disney - que deveriam priorizar outros valores em suas animações, que são verdadeiras obras de arte - em vez de recorrer a pessoas sem experiência na atuação e dublagem para aumentar o box office. Portanto, em Encantado este recurso é INTELIGÍVEL, mas não PERDOÁVEL. A versão original não sofre tanto com este aspecto, mas a versão brasileira sim. Larissa Manoela e Léo Cidade não possuem a experiência necessária para realizar um bom trabalho se dublagem, ainda mais conduzindo o filme como protagonistas. Não há um entendimento sobre as variações de tom, de intenção e de sincronização. A diferença fica ainda mais gritante quando Felipe e Lenore estão em cena com personagens dublados por dubladores profissionais. As crianças podem até se mobilizar a ir até a sala de cinema pra verem seus ídolos, mas a experiência de assistir a Encantado acaba por ficar seriamente comprometida.

Enfim...

Encantado estreia nos cinemas no auge das animações, onde a qualidade e a produção são mais democráticos e todos os estúdios podem realizar seus experimentos. Encantado é um filme que mais acerta do que erra, e sem dúvidas um bom material de estudo para os próximos trabalhos da 3QU Media. O maior problema em Encantado é sua falta de ousadia - essa sim, muito distante da arte de contar histórias da ainda referência máxima Disney/Pixar. No fim, acaba faltando encanto em Encantado. A dublagem brasileira também acaba por comprometer a qualidade do longa, optando por priorizar o comercial no lugar da experiência cinematográfica. Existem muitos dubladores famosos, mas ser famoso não significa ser dublador. No escuro do cinema, durante as quase 1 hora e meia do tempo médio de uma animação, ninguém enxerga likes e stories. Como profundo admirador da dublagem brasileira, repito: deixem a dublagem pra quem estuda com afinco a dublagem.

Encantado é uma animação que certamente divertirá as crianças, mas que não conseguirá competir com os universos animados mais vívidos na memória e no gosto do público. Ainda assim, Encantado pode ser uma boa opção para um programa em família - para aqueles que não esperarem algo mais profundo do que isso.

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