Review | Gris  -  Reencontrando sua voz e as cores da vida em meio ao luto - PREMIERE LINE

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segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Review | Gris  -  Reencontrando sua voz e as cores da vida em meio ao luto


Levando-nos através de uma deslumbrante e introspectiva reflexão sobre a vida, a morte e o luto, Gris assenta-se em meio ao panteão das grandes obras de arte dos jogos independentes como uma das mais belas composições já executadas num jogo, mesmo que suas possíveis interpretações sejam um pouco abstratas.


O ano de 2018 foi um ano com diversas emoções para mim, por diversos fatos e acontecimentos que posso enumerar e dizer muito à respeito.

Em primeiro lugar, e talvez principalmente, eu me casei com a minha melhor amiga. Nossa cerimônia foi linda, juras de amor foram ditas, nossos melhores amigos e familiares nos parabenizaram e desejaram felicidades. Esse ano também estive face a face com a depressão por diversas vezes - comigo mesmo por inúmeras adversidades e também por parte da minha esposa, que lida com ela há muitos anos. Na ocasião, meus pais, sempre muito presentes e amorosos, disseram diversas palavras de apoio e ânimo, tal como sempre fiz com minha esposa durante todo nosso relacionamento. Ademais houveram diversos eventos marcantes como as eleições presidenciais e outros episódios políticos, sociais, econômicos e até na indústria do entretenimento em todo o mundo - todos sobre os quais temos muito a dizer.

Contudo, em 2018 eu também estive presente em dois velórios - Para lamentar a perda de um primo após um trágico acidente de moto, que o fez deixar para trás esposa e filhos, e a perda de minha avó paterna, uma mulher guerreira e imensamente amorosa e amada que após sofrer com a doença de Alzheimer em seus últimos anos de vida, finalmente pôde descansar em paz.

Diferente dos eventos citados no início, dos quais posso facilmente falar à respeito e adjetivar, e onde todos sabiam quais as palavras certas a serem ditas, vi-me atônito em como as palavras nos fogem quando frente à morte, e o quão difícil é definir ou classificar como nos sentimos em meio ao turbilhão de emoções que nos acomete.

A tristeza dos que ficaram para trás e não mais terão a presença do ente amado, a raiva pelos médicos que poderiam ter feito melhor ou de Deus, de quem, por vezes, nos sentimos injustiçados; a paz que vem do conhecimento de que o sofrimento de outrem chegou ao fim, a alegria ao relembrar os momentos mais felizes e do quão especial e importante foram em nossas vidas… A morte nos assombra pois, como seres vivos, somos incapazes de assimilar o que há "do outro lado", e não mais nos encontramos versados em nossas palavras.


3 caras entram num bar

É assim que se inicia a história de Gris  - palavra em  espanhol, francês e catalão para "cinza", o ponto intermediário entre o preto e o branco. Sustentada pela mão de sua já fragmentada musa inspiradora, ambas cantam em dueto, até que, como num último suspiro, a estátua desmorona enfim, fazendo com que Gris perca não apenas sua voz e sustentação, mas as cores de seu mundo, e desabe em sua lenta ruína.

A cena que se segue é tão literal quanto pode ser: a cabisbaixa e desanimada Gris se ergue, levanta a cabeça e segue em frente, partindo numa jornada de crescimento emocional que a ensinará a enxergar o mundo de novas maneiras.


Desenvolvido pelo Nomada Studio, baseado em Barcelona, Gris surgiu de uma ideia de dois ex-desenvolvedores da Ubisoft e um artista que já fez peças gráficas para Disney, Adidas e Zara, quando estes se conheceram num bar. Após algumas conversas, foi sugerida e amadurecida a ideia de um jogo que não evoluísse apenas mecanicamente, mas também visualmente, com cores sendo restauradas no mundo. É exatamente assim que Gris funciona - e o faz muito bem.

Após a sua queda, Gris progride por desafios de puzzle e plataforma que exigem que ela aprenda novas habilidades (mecânicas), como permanecer firme como uma rocha para resistir a ventos tempestuosos, ou pular com leveza, às vezes até em proveito destes mesmos ventos. Não há combates ou condições de derrota. O jogo apenas exige a sua adaptação; que Gris aprenda a conviver com seu recém-mudado mundo.

Ao realizar sua travessia com sucesso por uma determinada área, a protagonista se encontra novamente com a estilhaçada mão da estátua do começo do jogo - seu grande evento traumático. Ao defrontar-se com ele, seus sentimentos trazem uma nova cor ao mundo (visual), permitindo que ela o enxergue de maneiras diferentes e possa visitar novos lugares que outrora não conseguia.

Talvez o ponto de maior destaque do game, a arte aquarela feita à mão de Conrad Roset é um espetáculo de puro fascínio, e adiciona muito à experiência visual e narrativa do game. Ainda assim, suas mecânicas, puzzles e seções de plataforma são inteligentes e mantêm um ritmo sereno durante toda sua extensão, com alguns pontos mais eletrizantes intercalados num ritmo precisamente refinado - além de uma fantástica trilha sonora. Gris é um trabalho de pura maestria técnica.


5 tons de Gris

Não por acaso iniciei essa crítica com uma frase de Elisabeth Kübler-Ross. A psiquiatra suíça foi autora do livro "On Death and Dying", onde expõe os conhecidos 5 Estágios do Luto. E é através deles que Gris transita em sua jornada, partindo do preto-e-branco até recuperar outras quatro cores.

Apesar de não ser numa proporção 1:1 (até porque ninguém experimenta o luto de forma linear ou sequer da mesma forma), é possível encontrar momentos onde a personagem precisa lidar com a sua raiva  -  seja contra ela ou a seu favor  -  com a depressão -  da qual precisa de ajuda pra sair - e com os estágios de negação, negociação e, no fim, aceitação.

Ao aprender a lidar com seus sentimentos, Gris evolui, enxerga o mundo com novas cores e é capaz de seguir em frente até que possa ascender novamente às estrelas. E a criação do game em sintonia entre os designers, programadores, artistas e músicos criam uma composição onde todos esses sentimentos são transmitidos numa eficácia que raramente vemos em qualquer peça de entretenimento. É catártico, é emocionante, é libertador.


É praticamente impossível viajar pela trajetória da obra sem se encontrar numa posição de introspecção, vendo-se por diversas vezes refletido nas experiências da protagonista. Embora hajam diversos segredos e conquistas que revelem mais sobre a trama, não irei comentá-los aqui e também acho interessante que o jogo os mantenha escondidos, pois assim a experiência fica um pouco mais aberta a interpretações diferentes de pessoas que vivenciaram perdas diferentes. 

Por fim, Gris precisa enfrentar a si mesma e seus sentimentos mais obscuros a fim de encontrar resolução em si. E ver sua odisseia interior chegando ao fim, de mãos dadas com seu crescimento visual, sonoro e narrativo é um momento poderoso. Ela finalmente pode recuperar sua voz e aprender a ver a vida como ela é. E nós, como co-protagonistas de sua travessia, também recebemos um pequeno brilho interior, como uma estrela em meio a constelações.


Graças à Gris, ficou um pouco mais fácil entrar em 2019. Por mais que eu não saiba exatamente como colocar em palavras, eu sei que algo mudou, e que agora sou melhor por isso.

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