ENTREVISTA: O PL conversou com Gustavo Vinagre o diretor de "Lembro Mais dos Corvos" e Julia Katharine a diretora de "Tea For Two". Confira nosso bate-papo aqui: - PREMIERE LINE

ENTREVISTA: O PL conversou com Gustavo Vinagre o diretor de "Lembro Mais dos Corvos" e Julia Katharine a diretora de "Tea For Two". Confira nosso bate-papo aqui:

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É de uma alegria e primordial ver filmes como o longa– metragem “Lembro Mais dos Corvos”, dirigido por Gustavo Vinagre, e o curta–metragem exibido com ele “Tea For Two”, dirigido por Julia Katharine, roteirista do longa junto com ele e atriz do filme de Gustavo sendo a protagonista absoluta dele, essas obras existindo nos dias atuais, de uma importância gigante e uma alegria também ver esses filmes sendo bem recebidos com prêmios inclusive de Julia que foi a primeira mulher trans a receber um prêmio em um festival, no Festival de Tiradentes no caso.

Misturando realidade e ficção, o longa segue Julia, uma mulher trans, durante a sua crise de insônia conversando e sendo filmada pelo seu amigo Gustavo, diretor do filme, enquanto conta a sua vida num belo, verdadeiro, relevante, engraçado, divertido, emocionante e importante estudo de personagem.

O fato dele ser o último longa que estreia da Sessão Vitrine Petrobras, que depois de dois anos de promover o cinema independente chega ao seu fim com o remanejamento das verbas que são destinadas pela estatal ao fomento cultural, é ainda mais decisivo. “Lembro Mais dos Corvos” é um muito marcante dentro de um momento muito assustador que estamos vivendo e representa politicamente tudo que vai contra esse momento e uma força política e artística contra ele, como afirmam os seus realizadores várias vezes.

Tivemos a oportunidade de conversar com Gustavo e Julia e o papo foi ótimo. Falando sobre o longa e o curta, como eles chegaram a ser o que são, o que essas obras representam no triste Brasil atual, o cinema brasileiro no Brasil atual, a realidade dele, os caminhos dele e a cinéfila que nós move. Espero que gostem.

PL: Quando surgiu o seu interesse, Gustavo, de fazer esse filme e essa conversa com a Julia? Vocês já trabalharam juntos antes, são amigos, então como surgiu esse interesse e como você viu que isso seria uma possibilidade de render uma obra interessante? E como você recebeu isso, Julia?

GUSTAVO: Bom, foi um caminho extenso, a gente se conheceu a dez anos atrás, a gente trabalha num site MixBrasil, que era também um festival, eu era estagiário lá, eu queria estudar cinema, ainda não estudava, e ela era secretária. E aí ela sempre me impressionou em como ela falava muito dos filmes, a maneira que ela falava, a quantidade de filmes que ela tinha visto, então eu ficava bem encantado com a cinéfila dela. E depois ela foi pro Japão. Eu fui pra Cuba estudar cinema, realizar meu sonho, e aí quando eu voltei eu tentei contata–lá, mas ela tinha mudado de nome e o facebook que ela tinha. Mais aí a gente conseguiu reatar a nossa amizade e começamos a trabalhar juntos no cinema. E aí eu tive o click de que tinha que fazer um filme assim um dia que eu estava ajudando a Julia a preparar um documentário que ela estava dirigindo na época e ela estava falando com a equipe. Recontando muitas das histórias que ela já tinha me contado. E sempre que ela conta uma história vem com um brilho diferente. E sempre é hipnotizante. Então nesse momento eu reparei que precisava só de uma câmera e dela querer fazer o filme também junto. Que bastava porque ela tinha uma capacidade muito grande de criar o mundo só com as palavras e foi isso né. Eu falei “Julia, vamos fazer esse filme e vamos aí enfim sentar juntos e elencar quais histórias mais importantes, mais relevantes pro filme” e foi meio que um experimento também. Eu não sabia se ia ser um longa, pressenti que podia ser um longa, mas também podia ser um curta, e tudo bem. Mas eu queria meio que realmente embarcar nessa insônia dela de uma noite e que fosse meio que compartilhar essa experiencia, essa insônia, com ela. E que fosse um filme meio experimental nesse sentido que não haveriam segundos takes, seria quase uma performance, a gente filmaria ao longo dessas 12 horas.

JULIA: Eu quando recebi o convite fiquei muito feliz, eu fiquei muito orgulho também porque “primeiro longa do Gustavo Vinagre”. Que responsabilidade. Mas é isso. Eu me preparei muito pro filme, emocionalmente, porque eu sabia que ele tocaria em questões muito difíceis pra mim e complicadas. E tem essa responsabilidade de representatividade né. 

PL: Sim.

JULIA: ... De aproveitar esse espaço pra falar a respeito de questões que qualquer mulher trans que assista ao filme se identifique em alguma ou outra coisa do filme, em ou outro momento, então foi isso. Eu fiquei muito feliz. Eu me preparei. A gente teve muitas coisas. Sobre o que nós falaríamos no filme e eu estou só alegria e de felicidade.

PL: Ah que ótimo.

JULIA:... E estou tendo uma boa repercussão. Eu espero que a gente consiga acalcar muitas pessoas. Ele vai passar em 27 cidades junto com “Tea For Two” então espero que nessas 27 cidades ele consiga um público bacana assim e que a gente não deixe esse sistema repressor nós derrubar.

PL: Com certeza. Falando nesse “sistema repressor”, a gente está vivendo um momento político nefasto, né? A gente está nessa ascensão, já se acendeu na verdade, do neofascismo, da perseguição a grupos ditos como “minorias” né: a gente vive num país que mata LGBTQ+ diariamente, no país, o país que mais mata transsexuais, um país que comete o genocídio negro. Eu queria perguntar pra vocês: assim eu acabei de me formar em Cinema, e além de ter estudado e escrever sobre cinema, eu vivo muito isso, e o que a gente está vendo é sucateamento do cinema, a Ancine, a Petrobras que como vocês citaram em outra entrevista tirou o patrocínio do cinema e a gente está vendo esses retrocessos. Vários retrocessos. Como vocês acham que filmes com temáticas LGBTs ou que tenham pautas políticas porque todo filme é político né, mas que assumam uma posição política e que tenham como pautas LGBTs e outras temáticas assim vão conseguir sobressair nesse momento, vão conseguir sobreviver e andar nesse momento? Qual é a importância deles nesse momento? E outra pergunta: qual vocês acham que vai ser o caminho do cinema brasileiro nessa perseguição a cultura, arte, educação e qualquer pensamento inteligente e que vá contra essa onda reacionária?

GUSTAVO: Ai, está bem difícil fazer projeções, mas eu acho que o caminho do cinema brasileiro vai ser comedias de grande bilheteria e que diante de como está se desenhando os editais agora através de pontuação baseada na bilheteria então é praticamente impossível pra um diretor que não tem o primeiro longa conseguir o dinheiro pra fazer o seu primeiro longa porque pra Ancine curta–metragem não vale nada. Você pode ganhar a Palma de Ouro em Cannes que de acordo com o nosso sistema de notas, curta não vale nada, o que vale é o que vai distribuir comercialmente e de quanto isso deu na bilheteria. Então basicamente quem tem as maiores notas são os grandes diretores globais e a comedias globais e os produtores desse tipo de produto. Então não existe um pensamento artístico como havia até dois, três anos atrás, que havia o segmento pra primeiros filmes, enfim, até pra filmes de grande orçamento, havia uma diversidade né, agora o que parece haver é simplesmente a porta fechada pra qualquer outro tipo de pensamento artístico e aí também pra pessoas negras, pessoas trans, porque como que essas pessoas vão dirigir um primeiro filme se eles só dão dinheiro pra quem tem no currículo uma grande bilheteria?

PL: Sim, sim.

GUSTAVO: Então eu acho que a única forma de continuar existindo algum tipo de filme é infelizmente com pessoas como eu privilegiadas que podem tirar sei lá mil reais ou por aí do bolso e fazer um filme com amigos também privilegiados que podem se dar ao luxo de não cobrar um cache, entendeu? E aí quem sabe se a gente ganha um prêmio eu posso pagar as pessoas mas assim, infelizmente o que está se desenhando é: ou o cinema comedia babaca ou pessoas fazendo por conta própria que sempre vão ser as mesmas pessoas que tem acesso aos meios e que em geral são pessoas brancas de classe média, classe média alta, então sei lá eu acho que vai ser bem complicado.

PL: Sim. Quer falar algo a mais sobre isso, Julia?

JULIA: É, eu acho que a gente está entrando num momento que tem que se pensar em cineclubes, em outras formas de exibição, que não sejam só essas exibições né comerciais porque é isso que o Gustavo falou assim. O que vai realmente ter espaço nas salas de exibições são esses filmes de grande porte, com muito dinheiro, com produtoras com nomes famosos, globais e etc. E aí o cinema autoral, o cinema independente, eu acho que ele só vai sobreviver se a gente repensar a forma de como levar esse cinema adiante em como colocar ele pro público né. E criar um novo sistema. De exibição. De alcance. E também é um momento que a gente tem que gente precisa preparar o público pra entrar nessa luta com a gente, sabe? Eu as vezes sinto que existe um certo preconceito com o público. Se subestima muito o público de cinema. “Ah, todo mundo só quer ver comedia da Globo com Leandro Hassum, Paulo Gustavo”. Enfim, “o povo gosta disso e o povo só consome isso”. Eu acho que não. Eu acho que a gente de repente pode entender como chegar a esse público né e conversar sobre cinema e entender o que eles pensam. Não sei. 

PL: Sim, sim. Tirar esse olhar elitista um pouco né.

JULIA: É, abrir o diálogo. Às vezes eu penso: “cara, porque o meu filme não pode fazer 300 mil reais ou 200 mil reais de bilheteria?” Pode, mas como eu posso dizer isso? Como eu posso alcançar esse público? Como eu posso achar esse lugar com o público de cinema? Ou como eu posso formar um público de cinema? Porque é importante a gente também pensar em como formar esse público. Porque tem uma geração de jovens aí que não vai pro cinema porque simplesmente não tem interesse assim. Porque nunca foi dialogado com eles assim “o que é cinema”. “Vamos falar sobre cinema”. Eles ficam em casa trancados nos seus videogames e nos seus youtubers. E aí esses dias eu vi um canal de Youtube muito engraçado feito por um monte de adolescentes LGBTs e eles tinham quase um milhão de visualizações. Então eu falei “meu deus”, tipo, se eu pudesse ter essa mesma visualização no cinema com os meus filmes, eu e Gustavo, sabe? Ou dos realizadores independentes? Seria muito massa. Mas como a gente pode chegar a isso? Aí eu acho que é uma construção. 

GUSTAVO: Sim, é uma construção que parece quase impossível.

JULIA: É, realmente parece, é que eu sou muito Poliana.

PL: Ah, mas é necessário ser um pouco.

GUSTAVO: Trabalhar um pouco também essa plataforma da Internet...

JULIA: Sim.

GUSTAVO: E se utilizar dela.

JULIA: Concordo.

GUSTAVO: Porque eu acho que é um jeito de como as coisas são construídas hoje realmente porque se a gente depender do cinema é tipo a hegemonia americana. 

GUSTAVO: ... E é isso. A gente não é nada e acho que tudo está acontecendo novamente pra destruir todo um setor econômico do país que estava se estabelecendo, se construindo, e de novo são as mãos dos Estados Unidos querendo impor o que a gente deve consumir e os produtos que a gente tem que consumir. E é isso. E eles estão tentando mandar de todas as formas porque a gente começa de fato a se consolidar.

JULIA: Sim.

GUSTAVO: ... E pra eles isso é impensável. Enfim, novamente, somos a América Latina que só serve de quintal pra eles né.

PL: Perfeito, perfeito. Eu queria perguntar, Julia, no filme de vocês, você deixa bem claro a sua cinéfila, você fala de vários filmes e tal, isso tem um papel importante na sua vida e na sua história, na narrativa, você fala que você é fã do Ozu, do Bergman, da Nicole Kidman, quem não é fã da Nicole Kidman, não é?

(Risos)

PL: No filme de vocês, Julia, você menciona o curta que você está roteirizando e vendo o seu curta e vendo a sua fala no curta, se percebe que teve um processo de mudança dele. De como ele foi pensando inicialmente até ele ser executado. Como foi esse processo até ele chegar a ser o que ele é?

JULIA: Eu acho que o filme se transformou por uma questão de estado de espirito, sabe? Eu realmente comecei a fazer o roteiro pensando numa comedia romântica com um homem cis, uma mulher cis e eu. E por N questões eu não consegui levar esse projeto adiante com esses atores que eu havia contratado. E aí eu tive que repensar o filme desde o início. E eu amo muito esse ator eu tinha chamado pra fazer o filme e eu estava muito apaixonada pelo trabalho dele. Pelo personagem que ele construiu. E aí eu decidi que eu não faria o filme com outro ator que não fosse ele. Como não podia te–lo. Eu preferi trocar ele por uma atriz. Por uma mulher. Aí eu chamei a Gilda Nomacce, minha irmã, minha amiga, uma pessoa que eu quero levar pra vida. E foi interessante assim. Eu também chamei a Amanda Lira, que é uma atriz de teatro muito incrível, que também é irmã da diretora de fotografia do filme. É um filme que teve um set bem familiar assim. Bem prazeroso. 

JULIA: E é isso. Eu estava num momento muito fragilizada por essas mudanças todas, essas questões, e aí eu entendi que o cinema tem isso, né? Você constrói um filme na sua cabeça e possivelmente o filme que você vai ter nas suas mãos depois vai ser completamente diferente do que você imaginou em alguns casos. 

PL: Com certeza, com certeza.

JULIA: E sobre a minha cinéfila, assim, eu não sei até que ponto ela influência no meu cinema. Mas ela provavelmente deve influenciar. Eu não vejo isso muito claramente porque eu faço tudo intuitivamente. Então é isso. Espero que um dia um possa filmar com Nicole Kidman.

(Todos riem).

PL: Esperamos isso. Quero ver vocês duas ganhando o Oscar juntas. 

JULIA: Aí que lindo que seria.

Entrevista feita por Diego Souza.

Assista abaixo o trailer de "Lembro Mais dos Corvos" que já está em cartaz!

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