CRITICANDO | Green Book: O Guia – O filme “negro” de brancos para brancos - PREMIERE LINE

CRITICANDO | Green Book: O Guia – O filme “negro” de brancos para brancos

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Contando a história de como o ítalo–americano Tony Lip (Viggo Mortensen) ao se tornar motorista do pianista Don Shirley (Mahershala Ali) formam uma improvável “amizade” na década de 60, Green Book: O Guia se divide em duas narrativas:

Uma tentativa de “drama de prestigio” sobre racismo e as relações raciais nos Estados Unidos. E uma dramédia inspiradora com elementos de buddy movie e road trip sobre a “amizade” de dois homens.

E o filme falha miseravelmente de ambos os jeitos.

Primeiro, porque acaba sendo mais um filme dentro de uma fórmula cansada e ultrapassada sobre o tema que não faz sentido hoje em dia, mas principalmente porque é uma fantasia branca nojenta sobre racismo feita por brancos para brancos da maneira mais racista possível: o filme cai em várias problemáticas que reforçam uma mentalidade racista e clichês dos mais rasos sobre o tema por ser dirigido por um diretor branco e três roteiristas brancos incluindo o diretor entre eles.


Diretor esse envolvido com denúncias de assédio sexual envolvendo atrizes, e um dos roteiristas inclusive filho do personagem de Viggo Mortensen na vida real, que é um apoiador de Donald Trump e um racista com um discurso anti–mulçumano (detalhe: Mahershala Ali, um dos protagonistas do filme, é muçulmano).

Esses detalhes podem não parecer importantes para algumas pessoas ao falar do filme, mas são para ilustrar que além de serem pessoas que visivelmente não entendem o tema que estão tratando por serem... Bem, brancos contando uma história sobre racismo de uma forma branca para brancos. Também são além disso as pessoas mais inapropriadas para estarem envolvidas com esse projeto. Ou qualquer um. 

E isso resultando em Green Book acabar soando prepotente em todo momento ao tentar traçar verdades absolutas e ambiciosas sobre um tema importante que o filme claramente não entende nada e principalmente porque essas “verdades” são totalmente toxicas e racistas, num dos piores tipos de reforços de uma mentalidade racista com essa lógica “não se preocupem pessoas brancas, vocês não são racistas, então está tudo bem”, a narrativa do branco racista ensinando um homem a negro a ser mais negro em dos piores casos de “white savior” de todos os tempos ou a origem de como surge a mentalidade do “eu não sou racista, eu tenho um amigo negro” e o reforço disso, ou seja, não um conto de amizade como é vendido, mas sim um conto de reforço de um comportamento racista, sendo uma narrativa que se apresenta como uma crítica ao racismo mesmo quando é profundamente branca tanto em lógica e elaboração; e ela mesma é uma narrativa extremamente racista, ou seja um tremendo desserviço.


Muitas pessoas podem se enganar pelo melodrama forçado e bagunçado que o filme tenta construir apelando para a emoção exagerada para pegar o seu público, as piadas mal construídas, a relação emocional da dupla central que tenta soar amável mas acaba soando forçada e também mal construída, e um viés de critica ao racismo e um retrato com “viés progressista” para o retratar.

Mas esse “viés progressista” e essa crítica na verdade não passam de mentiras e disfarces, assim como em filmes como Crash – No Limite (Crash) e Histórias Cruzadas (The Help) Green Book: O Guia é mais uma narrativa que ao se apresentar como uma crítica ao racismo só reforça esse racismo fazendo um desserviço em uma narrativa feita por brancos sobre negros e temas negros para brancos lidarem com o racismo de forma branco e “palatável” que apazigue um pouco a “culpa branca” ao mesmo tempo que promove desserviços e reforça preconceitos além de uma lógica racista. Curioso que Conduzindo Miss Daisy (Driving Miss Daisy, 1989), filme que partilha uma premissa extremamente similar com Green Book e muitas semelhanças com ele, apesar de ter muitos problemas e estar longe de ser um grande filme, consegue ser um filme melhor como cinema e mais descente moralmente até que Green Book mesmo com todos os seus erros.

E segundo, porque a maioria das piadas e momentos tratados como brincadeiras divertidas entre ambos os homens ao se conhecerem só estão inseridas entre os momentos mais pateticamente dramáticos e exagerados do filme numa falta de nuance gigante e total só servem pra disfarçar e tornar mais palatável a lógica nojenta que o filme constrói.


Além disso, o humor do filme parece totalmente irreal e fora da realidade da própria narrativa muito pelo comportamento dos personagens que parece do começo ao fim extremamente constrangedor nesses momentos de comédia e não se casa com o tom dramático exagerado que vêm de tempos em tempos.

Peter Farrelly, diretor de comédias como Debi & Loide – Dois Idiotas em Apuros (Dumb & Dumber, 1994) e Quem Vai Ficar com Mary? (There's Something About Mary, 1998) que tenta nesse filme dar uma virada na sua carreira decadente não se adequa a esse tom melodramático do filme, fica claro que ele não leva o menor talento numa tentativa capenga de construir um filme “sério” que se vê assim por um lado e nem tem o domínio do drama soando o mais burocrático e exagerado possível; e nem consegue também trazer o seu estilo de comédia de forma inspirada ao filme caindo pra chacota muitas vezes da forma mais estereotipada e ofensiva possível mostrado claramente pela forma de como os negros são vistos pelo filme e tratados, especialmente Shirley, chegando ao ápice disso em uma péssima cena que usa um esteriótipo racista americano baseada no frango frito, e soando medíocre e sem graça nas cenas de humor.

O que faz com que o filme não consiga traduzir as duas coisas que quer: esse drama “sério” sobre racismo, essa história inspiradora sobre amizade e essa comédia sobre amizade. Porque falha em encontrar o tom e a união dos três. O constrangedor de Farrelly nesse filme por exemplo acaba não sendo engraçado como nas suas primeiras comedias, ficando apenas constrangedor e só. A road trip dos personagens e suas jornadas só parece desinteressante e um palco para todas essas falhas.

O único ponto de não destruição do filme são as atuações, mas mesmo assim com ressalvas. O Viggo Mortensen está extremamente mal escalado no papel de um ítalo–americano (acho que o Steve Buscemi e o John Turturro não estavam disponíveis, deve ser isso) e compõe o personagem cheio de maneirismos estereotipados de caricatura que é o que acaba sendo o papel dele com sotaque exagerado e tiques constrangedores, porém como o bom ator que ele é, ele consegue encontrar alguma sinceridade e verdade na composição do seu personagem entregando alguma sofisticação, emoção e intensidade no seu personagem aqui e ali em momentos muito raros, mesmo que isso não seja o bastante pra salvar o seu papel como um todo numa das atuações mais fracas dele.


Já o Mahershala Ali realmente se esforça e da dupla é o que se sai melhor, sendo o único destaque positivo do filme, principalmente nos momentos de mais humor e emocionais expondo de maneira bem sutil e minimalista a melancolia presente no seu personagem e dando alguma complexidade para ele, o grande problema é que a forma que o filme constrói o personagem é fazendo ele uma outra caricatura que Green Book parece ridicularizar o tempo todo e ter prazer nisso. Se Tony é visto como alguém que apesar de racista e ignorante, é bonachão, alegre, divertido e querido, Shirley é alguém visto pelo filme como alguém pedante, arrogante e chato. O que acaba sendo ainda mais problemático. E além disso apesar de ser tão protagonista quanto Tony, o filme nunca aprofunda a personalidade de Shirley, seus conflitos e apresentas temas sobre o personagem que nunca são desenvolvidas (por exemplo o filme sugere a homossexualidade dele em algum momento e nunca mais volta no assunto). Além disso, o que confirma a forma indevida do personagem ser mal retratado é a própria família do Shirley da vida real se sentir incomodada com o seu retrato no filme e o tachar de “mentiroso” em diversas partes.

Levando a um dos maiores problemas do roteiro desastroso do filme: a todo momento o personagem é culpabilizado por ser como é e tratado como ridículo por isso, fazendo que o homem branco o salve e o ensine a como se comportar de maneira adequa. Afinal esse é o dever do homem branco que apesar de agir de forma racista não é racista hein: ser o grande herói e levar luz para o homem negro sobre racismo que não sabe nada disso.

No meio desse poço de nojeira, temos a personagem interpretada por Linda Cardellini que é risível e é um grande desperdício de uma boa atriz e outro reforço de um estereótipo feminino batido da “a esposa e pronto”. E no comando de tudo isso temos a direção do Peter Farrelly que além de contribuir pra toda essa lógica tóxica no roteiro, tecnicamente faz um filme burocrático, formulaico, sem vida, sem brilho e de um exagero atroz tanto nas partes de comédia e drama e muito também em como equilibrar ambas. A fotografia segue essa completa burocracia da direção sem frames ou um olhar que consegue capturar a vastidão do sul americano em suas viagens. O mesmo pode ser dito de uma trilha sonora que vive no lugar comum sem explorar o contexto musical da época ou as referencias musicais que os personagens falam e trocam. E isso num filme que um dos temas centrais é a música.


Tão atroz quanto o filme como um todo que se vende como um grande estudo crítico sociológico sobre o racismo, mas que além de ser um Oscar Bait dos mais descarados, não é apenas isso, se isso o único problema estaria tudo bem, quer dizer não estaria, mas seria aceitável, mas tem o fator desse ser um dos filmes mais racistas e que reforçam uma mentalidade tóxica dos últimos tempos.

Talvez até um dos mais que eu tenha visto na vida. Triste em 2018 existam filmes como Green Book.


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