CRITICANDO | “Lembro Mais dos Corvos” e “Tea For Two”: Longa Jornada Insônia Adentro - PREMIERE LINE

CRITICANDO | “Lembro Mais dos Corvos” e “Tea For Two”: Longa Jornada Insônia Adentro

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Um cinema que segue a tradição documental de Eduardo Coutinho se encontra com Retrato de Jason (Portrait of Jason, Shirley Clarke, 1967) com as suas próprias particularidades, marcas, mensagens e intenções. Talvez esse seja o melhor jeito de descrever da maneira mais curta possível o filme Lembro Mais dos Corvos, longa de estreia do diretor Gustavo Vinagre. Porém além de Gustavo outra força move a obra e é o seu principal trunfo: Júlia Katharine, a dona do longa. Atriz trans, Júlia também é roteirista, co–roteirista do longa, diretora, cinéfila, apaixonada por premiações e tem uma vida de sobrevivência e resistência com alegrias e dramas típicos da vida de qualquer um, mas principalmente e particularmente alguém da comunidade LGBTQ+, ela conta sua vida com carisma, bom humor, sincera, aberta, livre, doçura, força, encanto, fascínio, emoção e de forma iluminada em um monologo com o diretor, também seu grande amigo de tempos, durante uma noite de sua insônia.

Passamos por momentos emocionantes, muito engraçados, de tristeza, choque, confrontação com a realidade, reflexão, e por aí vai nos seus contos sobre amor, traumas, família, confissões, preconceito, experiencias boas ou ruins, sobrevivência e autodescoberta como trans. O longa parece perceber a força que a sua protagonista tem e ao seguir esse esquema de brincadeira entre ficção e realidade promove um retrato muito sincero de uma personagem fascinante e um estudo de personagem com um roteiro bastante perspicaz. A história de Júlia é extremamente rica e as reflexões que ela promove também são. Os debates, as problematizações e uns tapas na cara. Gustavo insere Julia num contexto mundano da realidade cotidiana nesse recorte que ele idealiza a mostrando numa noite como qualquer outra passando por momentos comuns e momentos em que ressalta a extrema complexidade da sua protagonista. E ambos podem se misturar. Como numa cena em que um quimono e o ato de servir chá levam a um questionamento de Júlia de como as mulheres trans são tratadas como fetiche geralmente pela câmera. 

Gustavo filma Júlia como um adorador, alguém fascinado com a sua personagem principal e colaboradora, e alguém que sente uma paixão sincera pela própria história além de um carinho e um amor extremos pela figura que filma. Gustavo coloca a sua amiga sempre no centro da ação na sua sala, onde se passa o filme todo, sempre com closes pela protagonista seja em gestos mundanos ou nas suas histórias. Gustavo centraliza Júlia durante a sua jornada noturna porque é inteligente pra entender que ela é a dona da sua história e então utiliza a maior força do longa ao seu próprio favor.

É bem impressionante como o filme expõe de forma natural mas muita sincera as vivencias presentes no monologo de Júlia. Algumas delas extremas graves ditas com a realidade da vida. Que nunca é falada só com dor, mas mesmo assim acaba doendo. O filme tem um grande mérito de conseguir retratar de forma hábil o tom certo da vida que pode ser tão dolorosa quanto divertida. E seguir em frente já é um ato de luta e um ato político. Júlia e Gustavo felizmente conseguem estabelecer um filme belo, engraçado e que traça um rico estudo de personagem sobre a sua protagonista central com um retrato importantíssimo de representatividade e um retrato 
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O longa ainda é acompanhado do curta–metragem “Tea For Two”, estreia de Júlia na direção. Ele conta a história de Silva (Gilda Nomacce), uma cineasta de meia–idade em crise divida entre um triangulo amoroso envolvendo a sua ex–mulher Isabel (Amanda Lyra) e uma fascinante nova conhecida (feita pela própria Júlia). Esse drama romântico serve muito como complemento para o longa e é um promissor começo de Júlia na direção.

Singelo, o romantismo e o amor pela arte de Júlia estão claramente representados durante todo o longa pela vibe doce porém densa e um tanto quanto melancólica que o curta apresenta quanto também por diversos posters de filmes ou a profissão das duas personagens que se ligam a própria realidade e a cinéfila da diretora. Júlia sabe balançar bem o humor com o drama, seus personagens são interessantes e o tema de sonoridade é alcançado. Em uma equipe quase toda feminina, Júlia transmite de dentro pra fora seus sentimentos e a sua representatividade criando um filme bem fotografado com cores bem estilizadas e fortes que transmitem aquele cotidiano conturbado porém sempre pra frente onde Gilda Nomacce brilha.

Quem sabe se continuar assim um dia no futuro Júlia não ganha o Oscar e tem a chance de discursar assim como as suas inspirações Nicole Kidman e Charlize Theron como ela mesmo fala. Quem sabe ela ganha junto com elas. O que sabemos é que Júlia é uma artista muito promissora e uma criadora importante com ideias importantes. E que estrela uma interessantíssima obra sobre afeto e realidades. Num país como o nosso é bom termos filmes assim e artistas como Júlia e Gustavo.


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