CRITICANDO | Uma Viagem Inesperada - Entre o Rio e Buenos Aires, longa discute bullying e paternidade - PREMIERE LINE

CRITICANDO | Uma Viagem Inesperada - Entre o Rio e Buenos Aires, longa discute bullying e paternidade

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É sempre interessante para nós, países sulamericanos, direcionar a atenção aos países irmãos e sua produção de arte. Reside, nessa comunhão do baixo América, uma partilha por temas, discussões, inquietações e geopolíticas que nos ajudam a compreender melhor quem somos, como latinos, e onde queremos e podemos chegar. E é se aproximando e consumindo a arte e literatura da América do Sul que podemos encontrar particularidades que só podem ser descritas por latinos - e compreendidas por latinos. Um reconhecimento histórico e cultural presente na vivência, na pele latina. O cinema é uma grande ferramenta de acesso a visão dos países da América do Sul. Como expressão, o cinema latino é muito conectado.


Brasil e Argentina são importantes pólos de produção, respeitados internacionalmente e referência na América do Sul. É sempre interessante ver resultados de parcerias entre os dois países e notar como pensamos, de forma única mas profundamente interligada, a linguagem cinematográfica. Uma destas trocas é Uma Viagem Inesperada/Viaje Inesperado, produzido pela Boulevard Filmes e Funciona y Kuenta Producciones. No longa, acompanhamos o engenheiro argentino Pablo (Pablo Rago), que precisa realizar uma viagem de última hora saindo do Rio de Janeiro e com destino a Buenos Aires para reencontrar seu filho Andrés (Tomás Wicz). Depois de anos sem terem contato próximo, Pablo precisa se reconectar com Andrés e descobrir quais são as origens de seus problemas escolares e emocionais. Uma Viagem Inesperada busca discorrer sobre assuntos pertinentes nas sociedades argentina e brasileira como bullying, paternidade e amadurecimento. O problema é que, na execução, estas discussões acabam ficando em segundo plano e são engolidas pela construção do drama e pelas escolhas nada atraentes de condução e narrativa. O bullying, um dos temas visivelmente mais buscados pelo longa, ocupa pouco tempo de tela e é mostrado de forma superficial. Uma Viagem Inesperada não fornece ferramentas, contradições e/ou um debate concreto para que o espectador se faça perguntas e continue pensando sobre o assunto mesmo após o fim do filme.

Também é visível a necessidade de ressaltar Uma Viagem Inesperada como uma obra fruto da integração Brasil-Argentina. Parece existir a obrigatoriedade de criar cenas, planos e sequências que ressaltem os cartões postais do Rio de Janeiro e apresentem as cidades argentinas por onde Pablo e Andrés passam. O resultado é anti-natural e comercial demais. É explicativo demais, subestima a inteligência do espectador. A filmagem do diretor Juan José Jusid (Bajo Bandera) também acaba por optar pela simplicidade, utilizando planos e contraplanos e ousando pouco com a câmera. O resultado é engessado, monótono, e não consegue extrair toda a possível potência dos diálogos. Fora os planos que mostram as cidades e os estabelecimentos, que servem quase como establishing shots - aqueles planos que mostram o exterior ou um imóvel para localizar o espectador onde a ação ocorre - algo já bem ultrapassado e desnecessário para a audiência moderna, já acostumada com a linguagem cinematográfica. Ainda é realizado um plano aéreo com um drone que, sem fluidez, nos tira drasticamente da ficção. O resultado final parece ser desnecessário ao projeto, soando mais como uma vontade puramente técnica de se obter uma tomada aérea com - mais uma - paisagem carioca.


A filmagem também não tem ajuda da montagem, que não é precisa e organizada. Os raccords (pontos de transição entre um plano e outro) não são bem realizados. Também não deixam claro espaços de tempo nem constroem um bom direcionamento da compreensão do espectador. Isto é visível, principalmente, durante um diálogo entre Pablo e Andrés. Os personagens conversam enquanto andam por um estabelecimento. Enquanto isso, a montagem cola pedaços dos dois, em diferentes partes do hospital, continuando a conversar do exato ponto em que a conversa estava no local anterior. O que aconteceu nessa cena? Os personagens conversaram o mesmo assunto diversas vezes, e a montagem nos mostrou pedaços destas diferentes conversas? Os personagens conversavam sobre algo, ficando longos momentos em silêncio e depois, em um novo lugar, retomavam a conversa do exato momento em que pararam? Os personagens se teletransportam? Este tipo de equívoco é causado principalmente pela direção e montagem, e se repete em maior e menor escala ao longo de Uma Viagem Inesperada. Outro deslize é o excesso de espaços de tempo entre uma fala e outra. Pode existir a necessidade de incluir silêncio e tempo entre um diálogo e outro, o problema é quando não há a intenção e a montagem evidencia a sobra de tempo entre a fala de um ator e outro. Além de quebrar o realismo da cena e nos tirar da ficção, estes espaços são sentidos pelo espectador a longo prazo e quebram o ritmo do filme.

Os diálogos também são prejudicados pelas escolhas - talvez da direção, talvez da natureza do projeto. Os atores brasileiros são orientados a dar o texto de forma correta, respeitando o português e passando por cima da naturalidade da pronúncia do brasileiro. A pronúncia integral de palavras naturalmente abreviadas, como "está", o uso do som perfeito do "e" e do "i" e a limpeza de qualquer tipo de sotaque retiram toda a vida dos diálogos em português e fragilizam a atuação dos atores e atrizes brasileiros. É difícil entender a escolha, talvez uma forma de deixar os diálogos em português mais fáceis de entender para a audiência argentina. O fato é que esta é uma visão muito higienizada e ultrapassada sobre o português brasileiro, e uma negação da identidade única da língua e cultura do país.



Os atores e atrizes argentinos possuem mais liberdade, mas ainda sofrem com a superficialidade do roteiro. Em especial, as personagens femininas. Todas as personagem femininas estão atreladas aos personagens masculinos. Não possuem dilemas próprios, sempre estão girando ao derredor de seus maridos, ex-maridos, namorados, filhos, pretendentes. Não há sequer um encontro entre diferentes personagens femininos em cena. Há também a objetificação da mulher, velado por uma áurea de "machismo latino", aquele machismo cortês e romântico. Se esta é uma crítica justamente a este comportamento do homem sul-americano, faltam elementos no longa que nos ajudem a entendê-lo. O mesmo pode ser dito sobre a masculinidade tóxica do longa, está já mais visivelmente criticada, mas que também não possui contrapontos mais incisivos.

A participação de Débora Nascimento, uma grande atriz de sua geração, acaba por ser desperdiçada. O mesmo pode ser dito da atriz Cecilia Dopazo. Tomás Wicz, o Andrés, realiza bem a trajetória do personagem, mas não consegue entregar a dimensão necessária em algumas cenas que exigem maior complexidade dramática. Pablo Rago é a coluna central do filme, explora muito bem momentos preciosos de transformação do personagem e compreende muito bem as diferentes camadas de Pablo.

Um dos grandes acertos de Uma Viagem Inesperada é justamente quando investe mais em seus personagens e em seus intérpretes. Quando são colocados em relação, quando possuem espaço de estabelecer e resolver conflitos, podemos nos conectar melhor com as situações propostas. Mesmo os símbolos mais óbvios e literais, como uma partida de xadrez durante a discussão entre 2 personagens, acabam por se tornarem indicações interessantes ao espectador mais generosos, que podem aproveitar a oportunidade de estudar estes personagens e seus dilemas tão vivos na sociedade brasileira, argentina e latina.

Enfim...

Uma Viagem Inesperada/Viaje Inesperado é um filme que bebe na estrutura road movie para construir um drama familiar sobre bullying, paternidade e responsabilidade. Com falhas estruturais que atrapalham a experiência e obrigatoriedades técnicas que tiram o espectador da ficção, o longa acerta quando se propõe a estudar seus personagens quando em relação e seus conflitos.

Não é necessário que vejamos o Corcovado ou ruas de uma cidade argentina para que lembremos que o filme se passe nestes diferentes países. Enxergar os dilemas e humanidades destes personagens é o que realmente nos relembra que somos tão próximos, e que dividimos mais do que apenas fronteiras e costumes parecidos. Somos latinos. E nossa arte, latina, sempre é uma importante ferramenta de estudo e auto-conhecimento.


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